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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Século XXI


Quem tem mais de cinquenta, como eu, provavelmente deve estar com a mesma decepção em relação a esse futuro que nos alcançou depois de longas batalhas para o realizar. Porque o futuro não chega sem muita luta, fica resistindo ferrenhamente e precisa ser arrancado à fórceps dos sonhos para finalmente gritar, para nossa alegria, quando nasce cheio das melhores expectativas.
Os primeiros momentos são de todos, um pedaço de cada um. Aquele olhar de esperança é dos avós, não notou? E aquelas ideias na cabeça, tão ralinhas, uma pendendo para um lado, outra para o outro, não é a cara do pai? Mas a força com que reclamou ao nascer, os berros que todos ouviram, isso não há dúvidas que é da mãe. Há sempre um vínculo com o passado, que lhe serve de base, em cada novo século que nasce.
Talvez por isso todo século quando nasce é feio. Enrugado de estar mergulhado em ideais por tanto tempo, só curtindo a vida nos sonhos que nem precisam se realizar, chamam-se apenas de futuro. Ninguém espera de fato que as expectativas se realizem, são mais para se ter algo em que pensar quando se namora, juntinho de conchinha, agarradinhos embaixo de um cobertor quentinho enquanto o frio fica do lado de fora, entre um amor e outro, até que haja um sexo gostoso que faz esquecer de tudo.
Talvez tenha sido esse o problema, o sexo. Desde que liberaram geral no século passado, com a queima dos sutiãs e o amor livre regado a muito rock´n´roll e rebeldia, as coisas ficaram mais soltas. Depois veio a ressaca, os peitos cansados da gravidade voltando para sutiãs de bojo a fim de parecerem mais firmes, volumosos, as ressacas homéricas que levaram a batidas ferozes, distorções, desconexões, em rituais sexuais estilizados. A rebeldia ainda tentou se manter firme, rebelde até mesmo na decadência. Importante era se revoltar contra qualquer coisa, e haviam tantas.
Ficou tudo tão disperso que os laços ficaram frágeis, esgarçados como lençóis amarrotados depois uma noite de amor intenso, a louça do café da manhã se juntando com a do jantar e esperando que alguém tivesse a dignidade de lavar os pratos antes dessa pirâmide desabar sobre a própria base. O homem foi para a lua a pretexto de trazer o universo para a amante, mas esqueceu o que tinha ido fazer lá, voltou de pedras nas mãos. Pedras que substituíram flores, muros quebrados que se tornaram mais pedras, e quando haviam tantas pedras no caminho, a poesia perdeu espaço e ficou concreta, armada. Começaram a atirar nos outros restos do sonho que acabou.
A esperança estava logo ali depois da curva, na virada do século que prometia ganhar novamente espaço, ciberespaço, que juntaria lugares mais distantes que o olhar diferente. Criar pontes e achar novos caminhos que nem se sabia existir. O amor estava no ar e o sexo nas veias eletrônicas de uma nova realidade, mais forte, bondosa para com os desprotegidos de além, na esperança que outros cuidassem dos daqui. Resgatar a natureza depredada, compartilhar riscos e ideias, juntando grupos de semelhantes em uma aldeia global que faria a roda do progresso girar e trazer soluções para todas as doenças do corpo e do caráter. Faríamos contato com outras inteligências de outros mundos que nos abraçariam em irmandade para salvar o planeta e a nós mesmos, no futuro.
Quando o século XXI nasceu, a contragosto, veio marrento em sua arrogância imatura, fruto de lar desfeito em valores penhorados. Criança birrenta, egoísta, que constrói castelos com pedras atiradas para olhar de cima das muralhas com ar reprovador das diferenças, na certeza individual de que é rei e o universo deve se curvar à sua vontade e sua inquestionável expertise superior. O olhar obeso acima do outro, a crítica chovendo acida em solo infértil, de rios contaminados e mar alagado.
Contatos com outras civilizações? Só se for para sexo voraz, descartável na saciedade individual, a posse sem retorno, que sinta o privilégio de me ter e esqueça essa coisa de ter sua vontade. Deixa de frescura que a vida é dura e vai penetrar onde houver espaços, caminhos fálicos, gente de armadura.
Solitário para não se ferir, cresce gigante o medo do desconhecido, espelho escurecido, revelado em fotos de nudes que deixa vazar nas redes, tentativa de ser capturado para não fazer tantas escolhas difíceis.
O que aconteceu de errado? Entramos com velocidade excessiva na curva e derrapamos em direção ao abismo? Ou apenas descobrimos que o mundo não é do jeito que pensávamos, com a nossa cara? Nosso jeito pode não ser o melhor, mas para que aprender se já acostumamos a ser? É preciso fazer a criança crescer de forma correta, perceber os erros dos pais e dos avós e não ter que os repetir, velhas lições só se forem estruturais. Não reinventar a roda, aprender a usa-la, descobrir coisas novas sem medo de ser velhos demais para aceita-las e nos permitir renovar.
É preciso olhar para o passado, não em busca de velhas respostas para os mesmos problemas que não foram solucionados. Olhar para frente e evitar saudosismos inúteis, reinventados pela lembrança adocicada da memória, buscando a sabedoria que nos fez chegar aqui. Tentar criar novas sabedorias que conduzam ao próximo século, sem gosto amargo de decepção e olhar crítico de quem já viu coisas demais, porém não reconhece as mesmas perguntas, os mesmos erros que insistem em se manter firmes, enquanto não os resolva definitivamente.
Então poderemos verdadeiramente conquistar o espaço, abraçar novas civilizações, que descobrimos não estarem no mundo da lua onde as fomos buscar, mas aqui ao lado, na casa do vizinho que, inadvertidamente, nos deixou entrar e que agora não sabe mais o que fazer com a nossa presença constante e vigilante. Descobrimos ter uma coisa em comum com esse vizinho, o medo. Mas podemos descobrir que há outras, tanto melhores, em comum, como o desejo de ser feliz, de ter o seu espaço respeitado, de ter oportunidade de fazer escolhas diferentes e descobrir onde nos levam e que podemos aprender, ou nos decepcionar, com o que for encontrado. É preciso que isso seja feito, ou as próximas gerações não terão o privilégio que tivemos de ultrapassar limites do desconhecido, só para descobrir um espelho que nos revela como somos de fato, não como imaginamos, e que nos cobra a parte da responsabilidade de lidar com um sonho, que acabou virando a realidade em que vivemos. E que a poesia tenha esperança em nós.

Danny Marks

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Para (de querer) ser escritor


          Devo confessar-lhe, amigo, que fiz uso de suas palavras e recomendações, quando lhe expus a vontade que me assolava a alma desde tenra idade, que bons ventos a levem.
          Comecei, no intuito de capacitar-me completamente para a tarefa auto imposta, a colecionar as dicas que versejam em generosidade nestes tempos em que, praticamente todos, abusam de egoísmo.
          Juntei boa sorte de livros dos grandes mestres, alinhados de forma a poder devora-los, ao menos quatro por mês, de forma que a quantidade de páginas não ultrapassasse um total de vinte páginas por dia, tendo o cuidado de considerar os que tinham mais de trezentas páginas como sendo dois exemplares e não apenas um, porque é preciso parcimônia no planejamento.
          Reservei na casa um local em que pudesse ficar completamente tranquilo, longe de qualquer distração quando me dedicasse a escrever diariamente, ainda que nada significativo fosse produzido, e confesso que isso deu-me mais trabalho que imaginava.
          Pensei no que poderia me distrair ao escrever, e comprei tampões para os ouvidos. A fome e a sede poderiam ser aplacadas facilmente se instalasse um frigobar com algumas comidas rápidas e bebidas. Por uma questão de espaço tive que arrancar o box e o chuveiro para instalar também a mesa com o computador e a conexão de internet, mais a estante para os livros.
          Me inscrevi em várias redes sociais e baixei algumas horas com podcasts com entrevistas de vários autores, além de vídeo-aulas com os maiores gurus da atualidade. Instalei uma barra de exercícios e comprei dois pesos de dois quilos e uma esteira que ficou encravada na porta, mas que, quando desligada, permitia a passagem.
          Deixei algumas outras coisas de fora, afinal é preciso ir com calma no começo, e essa coisa de escrever profissionalmente é para ser levada a sério, como um projeto de vida. Tem que ter consciência das dificuldades e ir superando os obstáculos aos poucos. Em uma semana já estava fazendo exercícios físicos enquanto escutava as vídeo-aulas e podcasts e pensava nos comentários das redes sociais que iria escrever, antes de ler algumas páginas.
          Dentro de dois dias completo o primeiro mês nesse treinamento que vai garantir que o meu livro seja um Best Seller quando for lançado, já tenho até uma lista e um cronograma das editoras que vão receber o original para avaliação assim que ele estiver pronto.
          É uma experiência fantástica que estou vivendo, sabe? E não sei por que os meus familiares se mudaram, está ficando difícil conseguir alguém para abastecer o minibar e comprar um desodorizador de ambientes. Tudo bem que tenho pulado o banho, ultimamente, mas é que os comprimidos antidepressivos que roubei do médico que veio me visitar não estão mais funcionando, e o café com vodka também não.
          Já me expulsaram de quatro comunidades e denunciaram três vezes o meu perfil, mas tudo bem, eram apenas fakes e já criei outros que também foram denunciados. Esse pessoal não colabora, a inveja é terrível no mundo de hoje.
          Perdi um dos pesos que foi projetado pela janela quando caiu na esteira que estava em alta velocidade, mas não me atingiu porque estava fazendo umas flexões na barra antes de ler mais algumas páginas dos livros que já quase terminei.
          Estou só entrando em contato para saber se posso considerar como escrita os meus posts nas redes sociais que tenho colecionado para ver se algum dia tem algo que se aproveite para publicação. É que estou meio confuso quanto ao tempo que tenho que dormir para poder cumprir toda a rotina e já não sei mais se aquela história em que o Foucault atira em Cthulhu com o robô que estava em cima da lareira de Westeros, e se transforma no saci-pererê para fugir com a branca de neve para o país das maravilhas foi uma inspiração que tive em um sonho ou se realmente escrevi essas páginas.
          Mas de resto está tudo bem, não vejo a hora de começar a escrever o romance que vai revolucionar o mundo. Qual era mesmo o título?


Danny Marks

Aviso Importante

A partir de hoje o Ossos Crônicos passará a ser semanal devido a necessidade do autor de se dedicar mais ao seu trabalho. Inicia-se hoje a jornada de confecção de mais um livro que tem o título provisório de Fome de Viver.
Até que esteja concluso, Ossos Crônicos apresentará seus textos inéditos apenas uma vez por semana. Quem desejar pode ver textos mais antigos, inclusive de outros autores e notícias sobre literatura, no Retratos da Mente ( www.osretratosdamente.blogspot.com ).
Tenham uma boa leitura e voltamos a nos ver em breve! 

Danny Marks

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Vira-lata de Pedigree


          Uma vantagem de se ficar um velho escritor, e ainda bem que há algumas nisso, é que já se viu tanta coisa tantas vezes que elas começam a fazer algum sentido. É quase como virar um historiador, antropólogo, um sábio investigador das culturas passadas, um Joseph Campbell amador.
          Não quero falar da Jornada do Herói, talvez o monomito mais conhecido da história da humanidade. Ok, tem aquele outro, e esse aí também, mas vamos deixar assim. Que tal falar sobre algo da modernidade, que está nas bocas e nas docas? Quem já ouviu falar dos efeitos benéficos da crise?
          É exatamente isso o que quis dizer: Os efeitos benéficos da crise. Quantos livros foram criados, quantas reportagens foram feitas, quantos “cases” de sucesso foram estudados e divulgados por grandes figuras carismáticas? Basta ter uma crise econômica e a palavra de ordem passa a ser: reinvente-se!
          Aqui no Brasil é sempre a mesma coisa. Assim que a crise começa, culpa-se o governo pela crise, começa-se a falar em fugir do país para outro lugar melhor que fica em qualquer lugar que não aqui, pipocam os depoimentos de pessoas que largaram tudo (uma boa carreira de sucesso, uma vida confortável, carro de luxo, etc.) e se lançaram em alguma aventura em busca da verdadeira felicidade.
          Nesse ponto a crise avança e fica mais difícil para todo mundo, é o momento de dizer que a culpa é do povo que não sabe fazer as coisas direito, que se vende por qualquer circo que se apresentar, que o melhor é que morresse uma boa parte dos bandidos (que são todos os outros que não concordam com quem fala) que só sugam nas tetas da sociedade, cresce o fanatismo, a revolta, o radicalismo, as manifestações violentas.
          E a crise avança mais um pouco, e chega o momento de promover a reinvenção, de revelar as pessoas que conseguiram através do próprio esforço driblar a crise e até crescer nos negócios. Empreendedorismo, o futuro está nas suas mãos. O sucesso só depende da sua capacidade de correr riscos e se aventurar em alguma coisa que vai dar certo, se você se empenhar com a alma e todas as economias, suas e de parentes e amigos que conseguir aliciar.
          É quando o monstro vira seu amigo, o governo começa a tentar ajudar a reaquecer a economia, o povo é a melhor coisa que este pais tem, somos todos guerreiros, não desistimos nunca, os sacrifícios são necessários para garantir a vitória que está garantida para quem chegar lá no final do túnel. As oportunidades aguardam depois da curva.
          E as coisas finalmente melhoram, conseguimos virar a própria lata e subir ao pódio mais alto do pedigree. Somos todos campeões, os que sobreviveram. Ninguém fala nos mortos, feridos e falidos; os inocentes que sempre acabam tombando nas guerras para melhorar as coisas, para voltar a ordem, e se não estamos entre eles, é porque deu certo, ou porque não somos inocentes.
          Mas ao contrário do que julgam os brasileiros, isso não é atual ou acontece apenas aqui. Basta olhar para a literatura sobre o assunto de forma mais isenta, sem óculos cor de rosa, ou cinza. Quem já conheceu Dilbert e seus pares, sabe que o discurso é o mesmo, seja na Ásia, seja na Europa, seja nas Américas. Não adianta perguntar quem mexeu no seu queijo, nem conhecer profundamente o seu inimigo.
          O momento é para um tipo específico de literatura. Recomendo como referência Joseph Campbell, com seu monomito do Herói, que é apenas uma representação figurativa do ritual eterno da passagem da vida infantil para a adulta: a adolescência.
          A adolescência é uma invenção moderna para uma fase da vida em que se enfrenta a crise (outra invenção moderna) e se tem que provar que está apto a viver uma vida adulta (ou morre-se no processo, sendo um pária para sempre). Qual a novidade?
          A sociedade em que se vive, seja em que país for, também tem as suas fases de adolescências, fabricadas ou não, de forma a se fechar ciclos e... começar tudo de novo. Cada geração vai ter que enfrentar ao menos uma crise global, cada geração vai ter que suportar os seus mortos e monstros, cada geração vai ter que se “reinventar” para permanecer no modelo definido.
          Alguns criam as “contraculturas” que rapidamente são absorvidas depois da “farra” e o sonho acaba. O largar tudo só funciona quando se acumulou reservas suficientes para se manter vivo em outro lugar até que as coisas se acomodem e se consiga uma nova forma de voltar ao velho esquema, na maioria das vezes ao custo da geração seguinte.
          O que fazer então? A resposta seria meio óbvia, precisamos atingir a maturidade como sociedade, incorporar a pluralidade racial ao nosso pedigree e assumir que somos sim, vira-latas e isso só nos torna mais resistentes, mais eficientes, mais rápidos e capazes de nos adaptar, abandonando completamente o ideal de pureza que só o herói pode ter, e que, na verdade, poucos alcançam.
          Isso seria dizer que podemos abandonar completamente toda a mítica da jornada do herói e começar a construir um novo monomito que vai sustentar e orientar o futuro da humanidade, mas existe uma forte resistência Luddista a isso, para equilibrar a balança e tornar a crise (e o ciclo) necessária. Até que o monstro ganhe no final.


Danny Marks

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Leva e Traz do seu Néscio

                Se tem uma coisa que seu Néscio sabe é levar e trazer. Desde que se aposentou (e nem queira descobrir o que ele fazia antes a menos que tenha todo o tempo do mundo a sua disposição), e virou taxista em São Paulo. A vida se resume em levar e trazer as pessoas. Quando não fica.
          Tem vezes que fica no ponto de taxi, só esperando a clientela ligar para marcar alguma jornada, e de vez em quando pegar alguns bicos, porque a prioridade é dos clientes. E cliente do Néscio ninguém leva, só ele. Até parece que se fica com algum sinal oculto, os taxis se aproximam, mas quando percebem que é cliente do Néscio, vão embora vazios e o jeito é ligar para ele, quando já não ligaram antes.
          O Néscio não tem agenda, o negócio dele é celular. Tem tudo no celular e na cabeça, desde o seu número de telefone até fotos que ele busca nas suas redes sociais para poder socializar melhor. Saber como está a sua mãe, o cachorro, o papagaio, a planta que levou para casa a semana passada.
          E aquela moça que se machucou outro dia? Trabalha para o senhor, não é? Já está recuperada? Quer que vá buscar no hospital quando tiver alta médica? Se precisar de fisioterapia pode ligar a qualquer hora do dia ou da noite que se tiver alguém no carro dou um jeito de despachar logo.
          O carro do Néscio não é um Uber, mas tem sempre um jornal para poder ler qualquer coisa, a opção é conversar com o Néscio sobre algum dos milhares de assuntos que ele domina, ou ouvi-lo falar sobre alguém que conhece. Tem também uma água, se precisar molhar a garganta, e um dropes de menta no bolso da calça para uma emergência.
          Um dia desses tendo esquecido de comprar o jornal, seu Néscio me empurrou a história de um outro cliente que levou ao meu oftalmologista. Era isso ou dropes de menta. Fiquei com a história.
          Tinha pego o tal cliente em casa e percebeu que estava com a vista ruim, claro que foi logo avisando do problema, e a pessoa disse que estava indo no oftalmologista, se ele sabia onde era. Assim que viu o endereço foi logo dizendo que já que tinha me levado lá, descreveu todo o consultório e o estacionamento que era pequeno, mas ele poderia ficar dando umas voltas para fazer hora e depois era só ligar que vinha buscar a pessoa para levar para casa.
          O Néscio é assim, leva e traz, não tem essa de fazer as coisas pela metade, mas como já sabia que o médico demorava para atender, era daqueles antigos que ficavam conversando com o paciente e fazendo exames e tudo, achou melhor ir no banheiro antes de iniciar a espera. Tudo bem deixar o taxi no estacionamento para clientes enquanto ia no banheiro, né?
          A recepcionista deixou, o que fazer, mandar se virar no carro? Há casos em que a civilização conspira para o seu próprio fim, mas tudo bem, indicou o local do alívio e continuou o seu trabalho que não incluía recepcionar taxistas.
          Mas para alegria do seu Néscio o consultório é daqueles que parecem Uber, tem café, cappuccino, chá, chocolate, agua e bolachas. Uma variedade bem grande de bolachas, todas ótimas, pode acreditar, experimentou pelo menos duas de cada para ter certeza. Se tivesse um pãozinho era melhor, quem sabe até alguns daqueles tabletinhos com manteiga ou geleia. Sempre tem nos hotéis de luxo, mas consultório, já viu, né?
          Nisso, entre uma bolacha e outro café, aparece o médico e é claro que seu Néscio não perde a oportunidade de fazer o social, afinal quem lida com o público a tantos anos como ele, tem que saber fazer um social, né?
          O senhor lembra de mim? Trouxe aquele outro cliente outro dia aqui. Isso o da pasta marrom. Administrador, exatamente, ótima pessoa, cliente antigo. Hoje não, trouxe aquele outro ali. Por falar nisso, vai demorar mais ou menos quanto tempo? É que se for logo nem fico dando volta, a menos que possa deixar o taxi no estacionamento.
          Tive que descer, aqueles dias que São Camilo, o protetor dos usuários de taxi faz com que o transito esteja bom e se chega rápido ao destino. Nem deu tempo de perguntar o nome do outro cliente, mas anotei na minha agenda para mudar de oftalmologista ou ir com carro próprio, no próximo ano, quando voltar lá.
          Creio que é o mesmo senhor que anda fazendo uma forte campanha para que legalizem o Uber em São Paulo ou, pelo menos, que coloquem aquelas barreiras entre os bancos dos taxis, a prova de balas e só com uma pequena abertura para passar o dinheiro. Tudo para que o seu Néscio continue levando e trazendo as pessoas em paz.
          Achei um pouco exagerado, a princípio, mas depois fiquei pensando a respeito e até estou tentado a confirmar o nome do cliente, só para ter certeza que é o mesmo ou se já criaram uma associação de clientes do seu Néscio. Acredito que vale a pena andar algumas quadras de taxi para poder assinar a lista da petição para o governador. Mas não conte para o Néscio, deixe que seja uma surpresa, ele merece.
         

Danny Marks

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Você não é tão especial assim


          O sistema solar é composto de uma estrela central, chamada de Sol, e diversos corpos celestes sob sua influência gravitacional. Os quatro planetas mais próximos do Sol são Mercúrio, Vênus, Terra e Marte; mais afastados tem os quatro gigantes gasosos, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno; além desses existem os cinco planetas anões, Ceres, Plutão, Haumea, Makemake e Éris; sem falar em inúmeros corpos menores que permeiam praticamente toda a extensão do sistema solar.
          Apenas na Terra existem Ipês Amarelos, uma das 298 mil espécies de plantas que encantam os humanos. Humanos são uma das 7, 77 milhões de espécies animais que, ainda este ano, ultrapassou o número de 7 bilhões de indivíduos, sendo que a grande maioria deles acredita que algum ser divino criou tudo isso (os Ipês e todo o resto do sistema solar, por exemplo) só para que ele pudesse ter uma boa vida. Nenhum problema quanto a isso, crenças são úteis para nos conduzirem em algum determinado caminho quando tudo o mais falha e necessitamos de algum conforto extra.
          A Zenilda, por exemplo, acreditava que o Ambrósio nascera para pagar as contas dela e fazer-lhe as vontades. Não, o Ambrósio não era um gênio, apenas um humano que tinha conseguido juntar uma grande quantidade de bens e valores que a humanidade chama de forma genérica de fortuna. Ambrósio, portanto, era rico; por consequência, Zenilda e os filhos (junto com Ambrósio) também se sentiam ricos, afinal eram casados (a Zenilda com Ambrósio e os filhos com uma qualquer, segundo a mesma).
          Os mais atentos vão dizer que cometi um erro com Ambrósio, ao dizer que não era um gênio. Mas os fatos demonstram que não era mesmo, por dois motivos justos. O primeiro é que o Ambrósio foi a falência (embora a fortuna tenha durado um bom tempo antes de acabar), e o segundo é que não suportou o baque. Não, não morreu por ter falido, nem mesmo dos gritos da Zenilda quando soube. Sofreu um infarto e caiu duro no chão e ainda teve um traumatismo craniano que, segundo a Zenilda, estragou um ótimo tapete que estava na entrada da casa.
          Segundo a vontade do Ambrósio, o melhor seria cremar e espalhar as cinzas em um belo lugar. Dele, não do tapete, que um dos filhos disse que daria uma limpada para poder vender para um amigo turco. Como conhecido da família, fui convidado para a cerimônia fúnebre. Até porque precisavam de alguma ajuda com os tramites, afinal era o Ambrósio quem (em vida) fazia tudo, não deixava a Zenilda nem ir no banco para ver o saldo da conta bancária, o que deve ter sido um dos fatores que o levou a falência.
          Claro que providenciei a cerimônia de despedida e até indiquei como poderiam proceder com a cremação do Ambrósio. Poderia ter cremado o tapete também, mas tem coisas que é melhor deixar ir, e fui.
          O Ambrósio até estava bem no terno que tinha usado no casamento, há seis meses, em que tínhamos nos encontrado pela última vez. Foi quando soube da falência e dos seus planos para lidar com ela. A Zenilda também estava usando as mesmas joias do casamento (há coisas que se relutam em esconder, mesmo nos piores momentos), mas usava outro vestido, um verde escuro (“fico horrível de preto, jamais! ”, alguém deve ter-lhe dito que o vermelho decotado também não causaria boa impressão naquele momento).
          Os filhos do Ambrósio deram uma passada rápida, mas logo tiveram que sair porque tinham outro compromisso inadiável. Deram um beijo na mãe e saíram com alguma moça qualquer, não as esposas, porque já haviam se separado novamente. Dei uma olhada em uma delas quando já entrava em um taxi e tive a impressão que o vestido branco lhe caia bem no corpo de modelo.
          A situação exigia que vencesse as reservas que pudesse ter e me aproximasse da viúva inconsolável e, naquele momento, sozinha. Amigos, mesmo que não sejam gênios ou que estejam falidos ou falecidos, merecem a nossa consideração até a despedida final, e isso se estende aos que lhe eram caros. Duvido que alguém fosse mais cara que a Zenilda, para o Ambrósio, então fui prestar os meus sentimentos, como manda o código de bom amigo.
          Tão logo me aproximei a Zenilda desabafou, devia ter se segurado muito até aquele momento.
          — Não sei como o Ambrósio pode fazer uma coisa dessas. Imagina nos deixar em uma situação assim? E agora? O que vamos fazer? Nem ir ao banco eu sei, e os meninos? Nunca trabalharam, isso é coisa para pobre! Estou inconsolável.
          Realmente, que coisa feia, não é Ambrósio? Como pode simplesmente ter sofrido um infarto sem ter ao menos resolvido a questão da falência? Um verdadeiro descaso com a família, um verdadeiro absurdo. Tem gente que só pensa em si mesmo. Agora o que será da coitada da Zenilda, e do meu lenço de seda que deixei com ela para secar as lágrimas, aproveitando para me afastar rapidamente e pegar o primeiro taxi que encontrei? Depois tive que pedir para alguém buscar o carro no estacionamento do cemitério que pretendo não ver tão cedo. Essas coisas mórbidas acabam desestabilizando a gente.
Quando liguei para o crematório para saber se tudo estava nos conformes soube que os familiares do Ambrósio tinham acatado a sugestão dos funcionários de jogar as cinzas nas arvores próximas. É o procedimento quando os familiares demoram mais que trinta dias para retornar. Creio que o Ambrósio não deve ter se importado por um detalhe insignificante desses. Afinal o principal é saber que a nossa importância está naquilo que deixamos para as pessoas que nos são caras, depois que viramos poeira em um planeta que nem é tão importante assim, em relação a todo o Universo.
A Zenilda? Não sei, nunca mais soube dela ou dos filhos e netos. Acho que nem ela sabe. Mas todo dia quando abraço os meus familiares, lembro do Ambrósio, que não era nenhum gênio, mas que me deu uma ótima lição sobre valores que nunca vão à falência. Grande Ambrósio, que os Ipês amarelos o tenham sob sua sombra. Amém.


Danny Marks

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A Terceira Idade de Adão


(Pré-História)

Minha infância? Ah, o melhor tempo da minha vida, um paraíso. Aquilo sim era vida boa.
Todo dia, quando acordava, ia colher frutas e raízes. De vez em quando dava para pegar algum bicho para o almoço. Carne malpassada, cortada no dente ou na pedra. Naquele tempo era tudo na base do “pau, pau, pedra, pedra”, não tinha essas frescuras de hoje. Quando acabava as frutas ou vinha o frio, a gente se mudava. Ia para outro lugar melhor. Verdade! Sempre tinha um lugar melhor para ir.

(Extinção dos Neanderthais)

Fogo? Isso foi depois, sabe? Nem sei quem veio com essa novidade assim de repente. Teve um que disse que era coisa do céu, sei lá. Mas logo já era coisa nossa, até que gerou discussão. Tinha uns vizinhos que a gente não se dava bem, sabe? Uma gente meio rude, não que nós não tivéssemos boa vontade, mas sabe como é. Gente rude é fogo, se deixar se espalha e já era. Tivemos que dar um jeito neles, para pararem de incomodar, entende?

(Antiguidade)

Com o fogo deu para ficar mais tempo parado, comer melhor. Aí veio o metal, as plantações. Facilitou bastante as coisas, não precisava sair para conseguir comida boa. A mulherada deu para fazer roupa e fofoca, civilização é assim. Foi nessa época que inventei a escrita. Tinha que ir para a escola aprender, nada dessa coisa de pintar caverna o dia todo e tudo bem. Nem a caverna dava mais para acomodar tanta gente. E como tinha gente, meu pai! Tinha uns que trabalhavam e outros que ficavam pensando sobre as coisas, e sempre tinham coisa para pensar.

(Império Romano)

Então veio aquela turma que queria expandir os horizontes e mostrar que o nosso jeito de levar a vida era o melhor, quer dizer, o único que deveria haver, assim não dava problemas. Época boa essa, disciplina do exército que molda o caráter. De vez em quando a gente invadia um pais aqui e ali e colocava ordem na casa. Promovia a paz, nem que fosse na marra, sabe? Aqueles povos ignorantes que não sabiam o que era a paz, a gente ia lá e mostrava para eles. E as coisas ficavam em paz, de um jeito ou de outro. Depois era só cobrar uns impostos para manter as coisas certas.

(Povos Bárbaros, Cruzadas)

Teve um tempo que foi muito louco, sabe? Bateu aquela vontade de quebrar as regras. Tinha regra para tudo quanto é lado e ninguém aguentava mais. Pegamos os metais de novo e as coisas ficaram bem punk. Foi um tempo bárbaro, entende?
Briga? Ah, teve umas brigas danadas com uns caras que eram meio que esquisitos e moravam lá longe, onde não morava ninguém. Vizinhos, sabe? Sempre dá problema. Mas aqui entre nós, a gente já tinha aprendido a dar um jeito nos vizinhos. Ô se tinha...

(Idade Média)

Lembra daquela turma que gostava de ficar pensando? Então, teve uns que, sei lá, pensaram demais e começaram a escrever livro sobre isso. E resolveram ir além e escrever sobre coisa que ninguém viu. Cada ideia muito louca, mas sempre que tinha alguém que não ia na onda, faziam um churrasco, queimavam uma carne aqui e outra ali e a coisa seguia em frente. Com o tempo todo mundo ficou meio que maluco também. Uns queriam inovar tudo, outros queriam voltar tudo ao que era antes, outros nem sabiam o que queriam, dai inventavam um monte de coisa diferente. Ficou tudo muito obscuro nesse tempo, mas na Média a gente se superou. A gente sempre se supera e faz história, entende?

(Idade Moderna, Reforma Protestante, Iluminismo, Rev. Francesa, Rev. Industrial).

Aí veio a coisa da modernidade, você nem imagina. Foi muito forte isso. Sabe o que é máquina? Então, era máquina sendo criada para fazer e desfazer coisa de gente. Era um tal de reforma para lá e reforma para cá, umas coisas de renascimento, de iluminar tudo, como se já não tivesse fogo suficiente. Só sei que teve muita gente que perdeu a cabeça nesse tempo. Mas eu não, segui firme e forte, macaco velho não deita em galho podre, só vai no balanço.

(Independência das Américas)

Quando as coisas ficaram muito chatas, resolvi que o melhor era mudar de ares de novo. Sempre tive essa coisa de nômade, de querer ser livre. Aquela turma só pensava em castelos e além. Não dá, né? Chega um momento que a gente tem que crescer, cuidar da família, arrumar um lugar para ficar, essas coisas. Terra tinha, nova, lá do outro lado do mundo. Mas não dá para ter uma boa ideia e logo junta gente querendo fazer igual, chamar aquele chão de seu. Sem falar que tinha uma gente rude por lá que, sabe como é, né? 

(Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria, Movimento Hippie, Conquista do Espaço)

Foi uma guerra sabe? Por aí dizem até que foram duas, que quase viraram três, mas deram uma gelada na turma e a coisa sossegou. Não adianta nada você arrumar mais espaço se não pode fazer nada com ele porque está brigando com vizinho. O jeito foi fazer um acordo e dividir as coisas que sobraram. Até parecia que ia funcionar, que ia dar para relaxar e aproveitar os bons tempos, curtir as flores, plantar o amor e o que mais desse. Curtir aquele som na paz e na alegria. Que nada. Foi só dar uma relaxada e lá vem os que não vivem sem pôr fogo em alguma coisa. Gente rude.

(Criação da Internet)

Mas tem algo que acaba incomodando, cutucando a gente quando menos espera. O negócio era ficar de olho no que o vizinho estava fazendo. Teve até umas tais de redes sociais que pegavam a gente mesmo. Quando você dava uma distraída, já estava lá discutindo qual vida é melhor ser vivida e quem deve ter direito a ela e como, o que as pessoas devem fazer, como devem falar, com quem devem falar, essas coisas. O vizinho entrava na sua casa e você na dele e ninguém estava onde devia, não podia dar certo essa coisa, não é?
Não deu mesmo. As coisas foram ficando cada vez mais feias. E cada vez tinha mais gente no seu quintal e mais sol na sua cabeça. Então não teve jeito, tinha que dar um basta nessa gente rude.

(Utopia)

Acabei mudando pra Marte.
Isso sim que é vida boa.
Aqui tem pouca gente, e dá até para plantar e cuidar do almoço. Tem umas coisas diferentes que a gente precisa aprender a lidar ainda, mas não há problema. O negócio é seguir sempre em frente, colher o que planta e regar a vida. Isto aqui é o paraíso, sabe?

(Distopia)

Só tem um problema, aquele vizinho ali: a Terra. Vai por mim, gente muito rude aquela. Qualquer dia desses vou ter que dar um jeito.


Danny Marks