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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Azeitona com Caroço


          Tem aqueles momentos em que algo arranca você das suas mais profundas e relaxantes reflexões e o lança em um caos. Aconteceu comigo quando me deparei com o imenso aviso amarelo, com letras pretas em caixa alta: NOSSA EMPADA DE PALMITO CONTEM AZEITONA COM CAROÇO.
          Não há como ficar isento depois de um quase nocaute intelectual desses, e nem estou falando da ausência do acento agudo que deveria estar contido também. A mente se recusa a aceitar o que está sendo visto, isso é um verdadeiro absurdo. Como assim?
          Os óculos redondos, com ar intelectual, que estava logo abaixo do aviso, desafia para o duelo. Apresente suas armas. Tudo bem, vamos começar com um tiro de aviso. Empadas de palmito tem que conter palmitos, não azeitonas ou seriam empadas de azeitonas, não de palmito.
          Fraco — Ri os óculos, o que me deixa apenas mais indignado. Então vai ser assim, nenhuma suavidade no trato, nenhuma delicadeza a mais. Pois bem, que seja. O negócio é o seguinte, destaca-se apenas conteúdos perigosos quando oferecem perigo para determinadas pessoas. Então deveria avisar “contém glúten”, ou ovos, ou leite, ou qualquer outro componente que possa causar risco à saúde dos que não estão devidamente avisados.
          Então – responde os óculos com ar superior, o sorriso esboçado no canto da armação – caroços de azeitona fazem mal aos dentes, daí o aviso.
          Não tem jeito, a guerra está declarada. Às favas com a delicadeza. Ao contrário dos ovos, leite, glúten que não podem ser simplesmente retirados do conteúdo sem alterar significativamente a composição, o mesmo não ocorre com caroços que só existem na natureza como uma tentativa de perpetuação da espécie, sendo o invólucro apetecível justamente como estratégia dessa propagação.
          Exatamente. Caroço e azeitona fazem parte naturalmente de uma estratégia da natureza. Nascem juntos, crescem e cumprem seu objetivo até que sejam separados na degustação que lhes foi prevista de forma natural. O que deus uniu, o homem não separe.
          Agora ultrapassou o limite da aberração, juntar argumentos que fogem completamente à lógica é um sinal de falhas graves no entendimento da situação, ou então é um deboche declarado, que exige uma resposta à altura.
          O homem, criatura de deus, inventou a tecnologia que o separa do resto dos animais e lhe permite criar coisas como industrialização de azeitonas sem caroço e empadas de palmito, sem que se tenha que levar a arvore junto. Já sinto um embaçamento das lentes. Cogito ergo sum, e engula esse caroço agora.
          Não engole. Arqueia uma das hastes em um claro gesto de ameaça. Industrialização que aumenta os custos dos produtos comercializados e que acabam sendo repassados para a cadeia produtiva até chegar ao consumidor final. Reduzir os custos é uma forma de minimizar para o consumidor o impacto de ter que digerir o preço que, de outra forma, acabaria ficando salgado.
          Não me atinge, estava preparado para o ataque. Descaroçador manual, custa quase nada e, pela mesma lógica de agregar valor ao palmito com o acréscimo da azeitona, agrega valor pela retirada do caroço da mesma. Xeque-mate, triunfante declaro. Não há como reverter a situação. Apenas desvia a luz e se cala.
          Aproximo-me e declaro: Uma empada de frango, por favor. Detesto palmito, prefiro algo com mais proteína, a vida alimentando a vida. Toda batalha acaba dando fome, que afinal é justamente o motivo para que hajam batalhas. Dou uma dentada cuidadosa para evitar o maldito caroço, vencido, mas arrogantemente escondido em sua insignificância. Não encontro nada.
          Como assim não tem azeitonas na empada de frango? NEM COM CAROÇO!?


Danny Marks

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Eu, Popozudo


          Algumas pessoas comentaram comigo sobre os “absurdos que estão acontecendo na Bienal de 2016”, indignados com os “rumos que estão sendo traçados para a literatura brasileira”. Fazem referência direta a dicotomias geradas pelo fato de pessoas como Valesca Popozuda, que publicou um livro sobre autoajuda em um modelo quase biográfico e que se assemelha a um “Case”; ao enorme espaço destinado aos blogueiros, que publicaram exclusivamente para a Bienal e que acabaram tendo tanto ou mais destaque quanto os consagrados Maurício de Souza e Ziraldo, só para citar alguns.
          Pensando como administrador, uma das minhas formações, tenho que reconhecer que existe uma lógica implícita no mercado, seja qual for, que muitas vezes não é percebida sequer pelos agentes que a provocam e que, de certa forma, a mantém.
          Se formos analisar pela vertente do mercado, a resposta é simples: Ganha espaço quem vende mais, ou que produz uma promessa de vendas consistente com os seguidores que são considerados neste ramo como “público”. Ou seja, se você tem um público expressivo disposto a comprar um produto (livro) que tem associado o seu nome, vai ganhar espaço na mídia e consequentemente vai poder realizar suas vendas amparado pela estratégia de marketing projetada para isso. Em termos simples “seja um sucesso para ser um sucesso”.
          Mas, o que especificamente faz essas pessoas terem um público? Vamos usar um pouco de psicologia para tentar entender basicamente o que está acontecendo.
          Em tempos de crise geral as pessoas buscam alívio das tensões internas de alguma forma que varia de acordo com a idade, maturidade e repercussão. Isso explica um aumento da intensidade nas atividades que se ligam direta ou indiretamente ao sexo (desde atividades físicas radicais, games que estimulem sentimentos intensos, músicas e danças sensuais/eróticas, até o sexo propriamente dito). Não há maior alívio físico e mental que o sexo e suas variáveis, porque provocam um aumento da dopamina no organismo, causando uma melhora do humor, do foco, da sensação de recompensa, da memória, entre outras.
          Fica fácil entender por que, em tempos de crise, qualquer coisa ligada ao sexo, direta ou indiretamente, acaba provocando um aumento nas vendas. Mas isso não explica totalmente as coisas quando pensamos em livros, ainda mais que listamos entre os fenômenos da atualidade, pessoas que trabalham com literatura infantil.
          Então vamos caminhar da psicologia para a literatura. Quando as coisas estão tensas ao extremo, quando por todos os lados somos exigidos em raciocínios complexos dos quais dependem a nossa sobrevivência, e temos tempo ou necessidade de relaxar e buscamos um livro, o que desejamos é justamente algo que se contraponha ao estresse. Algo leve, simples, divertido, que não exija muito do pensamento e ainda provoque um bem-estar físico e mental.
          Fica óbvio que, enquanto o mundo todo está em crise de diversas proporções e de complexidades absolutas, a tendência de mercado literário é justamente na contramão, servindo quitutes que nos relaxem, nos estimulem como uma massagem suave, nos façam rir mais do que pensar.
          Alguns dirão, indignados, que isso não é literatura. Mas o que é literatura então? Neil Gaiman faz literatura de alto nível, com HQs. Maurício de Souza e a turma da Mônica criam reflexões que atingem e encantam todas as faixas etárias. Ziraldo gosta de brincar com a crítica social, coisa de menino maluquinho. E os blogueiros e popozudas? Eles também têm o seu espaço, seu público, sua linguagem e, claro, sua literatura; que pode não agradar a todos, mas qual literatura consegue? Não é a literatura um ato, por si só, revolucionário?
          Podem alegar que, entre os “fenômenos” apresentados na Bienal, há muitos que sequer escreveram “seus” livros, valendo-se de Ghost Writer. Ok, há uma discussão aí que poderia levar várias horas e crônicas, que envolveria definir o que é melhor, ser um autor e não ter espaço para vender ou ser um ghost e ganhar experiência e dinheiro para um dia se aventurar mais alto. Também poderíamos ir pela vertente de que quanto mais pessoas, principalmente jovens, estão lendo, melhor para todos os autores. E se o mercado atual está na tendência mais superficial da literatura, ao menos está preparando o terreno para os grandes romancistas.
          Obviamente que adoraria que já tivéssemos um forte investimento do mercado em autores nacionais, em uma literatura densa que atravessa as épocas e cria não apenas os Best Sellers, mas os clássicos de cada época. Mas não vejo com maus olhos que há pessoas comprando livros e lendo, nem que seja de forma descartável. Estão movimentando a economia, estão se divertindo de uma forma que não agride a ninguém, estão dando os primeiros passos em um caminho que eu e muitos escolhemos seguir profundamente, fazendo disso uma profissão e uma fé.
          Creio que na estante da história há lugar para todos os tipos de literatura, para todas as tendências e estilos, para todos momentos e gostos. E que não fiquem pegando poeira, que preencham os corações e mentes com ideias e emoções, com perspectivas diferentes sobre o mesmo tema e com temas diferentes para as mesmas perspectivas.
          E quando o mercado se voltar para autores mais densos, para uma literatura mais complexa e, ainda, divertida; quem sabe haverá espaço para este autor e sua literatura. Um espaço aberto por livros que foram descartados para dar lugar a algo mais elaborado, com embasamento em pesquisas e tramas instigantes. Então o mundo estará mais leve e poderemos mergulhar em divertimentos mais profundos e rir juntos.
Nos vemos (e lemos) em breve.


Danny Marks

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Roupa Velha Colorida.


          Estava lendo Flor de Obsessão de Nelson Rodrigues e assistindo a TV Senado durante o julgamento da, agora, ex-presidente do Brasil e não pude deixar de pensar naquela fábula sobre a Nova Roupa do Rei de Andersen.
          Não estou querendo me gabar de ser multitarefa, até porque estou bem longe disso. Com a idade a paciência parece diminuir, ao menos para determinadas coisas, e fica-se “zapeando” entre as que não se pode apenas deixar para lá.
          A questão é que a crônica de Nelson Rodrigues faz uma crítica à sociedade através de uma crítica recebida de uma leitora sobre a nudez declamada pelo autor. Claro que não sou tão genial quanto o mestre literato, mas a literatura nos permite fazer um recorte que trespassa textos completamente diferentes na forma, mas que remetem ao mesmo conteúdo, como no caso do conto de fadas A Nova Roupa do Rei, de Andersen.
          Enquanto não foi denunciada a farsa da roupa invisível e revelada a nudez do Rei, não causou nenhum incômodo na sociedade, o mesmo que descreve Nelson sobre o umbigo da embaixatriz, ou o nu carnavalesco da avenida, exposto para o mundo inteiro com detalhes e playback a que sugere.
          A nudez só causa incômodo quando algum garoto grita que há nudez no rei, já vista por todos, e muda completamente o estado da coisa. E o Rei que, até então, estava em êxtase pelo seu novo e invisível traje, passa a sentir a vergonha póstuma do nu repudiado pela cidade porque deslocado em sua exibição não solicitada; termina o logro, e a verdade traz o nu arrependimento.
          A mesma moça que desfila seminua para as câmeras que levarão sua nudez ao mundo, não suporta ver-se da mesma forma depois que sai da avenida, e só a retoma de forma natural ao pisar nas areias banhadas de mar. Vestimo-nos subjetivamente, mais que objetivamente, pelos olhos alheios que nos servem de espelho.
          E o que isso tem a ver com a situação política brasileira? Já o sabe, mas espera que lhe diga a minha pessoal interpretação para poder compor o seu aplauso ou a sua crítica à minha opinião despida e despudorada.
          Deixo a crítica, aponto os fatos. O que se viu no senado durante o longo julgamento do Impeachment da, agora, ex-presidente não foi outra coisa que não a vergonha póstuma ao ter expostos os valores morais (sejam de que quantidade ou câmbio forem) e ao se sentirem in-vestidos e vigiados, reclamam pela nudez do umbigo, exposto inadvertidamente, escandalizando-se ou defendendo acirradamente a controvérsia da liberdade total do despir-se. E do atrito surge cortina de fumaça que não permite que se veja nada do que devia ser exposto.
          Surge então o Rei com sua nova roupa, temeroso por não saber se está desnudo ou em invisível armadura, evitando qualquer exposição aos olhares espelho, que não seja a controlada cegueira da ética protocolar.
          A lição que nos vem da literatura é de que não há problema na nudez enquanto nudez, que se mostra como natural do que não precisa temer ser mostrado, já que é real e verdadeiro. O problema está quando essa nudez é julgada pelo olhar alheio que lhe oferece valor qualquer e lhe cobra em maior monta um sentido, uma decência, um contexto que desloca de sua existência natural e lança na cela social o recorte da cena.
          Não é a nudez que é exposta no rei, mas a vergonha da arrogância e incompetência refletida no olhar espelho que ofende. Fosse a nudez sustentada pela própria natureza de ser e apoiada pelo consenso legal ao qual estivesse submetida, não haveria qualquer necessidade de vergonha do julgamento alheio e desfilaria pela avenida simplesmente ignorando a falta ou o excesso de visão.
          É quando se está ciente da intransigência, do erro cometido, que se torna premente a necessidade de apontar a vergonha póstuma da própria nudez, para outro lado, denunciando em altos brados, no outro, aquilo que já vimos em nós, mas que, enquanto não denunciado, podemos esconder com tranquilidade do olhar que fere.
          Triste não é estar despido pela própria natureza, mas sentir necessidade de esconder a nudez na multidão a espera de algum olhar de solidão, para poder cravar-lhe nas costas a navalha da vergonha que não aguenta mais carregar, deixando que morra estendida no chão frio do asfalto, quebrando o olhar-espelho que revela o que não deveria.


(Danny Marks)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Empreendimento S/A


          Caro senhor, venho lhe falar sobre a sua empresa.
          Para melhor executar a minha função, inscrevi-me em um nível subalterno de forma que pudesse ter acesso a tudo que ocorresse nos diversos níveis.
          Foi imediata a constatação de que há um enorme vazio entre os andares mais altos e os andares abaixo deixando praticamente interrompidas qualquer via de acesso que não seja a de suprimentos (para cima) e ordens (para baixo).          Mesmo os andares abaixo desse vácuo (quase) instransponível acaba por ter diversos conflitos internos que, em uma análise mais rápida, parecem não conter uma lógica que os oriente.
          Poderia afirmar que existem agrupamentos que funcionam em um sistema mais ou menos organizado, que lutam violentamente contra outros agrupamentos em uma competição sem tréguas (mas com muitos armistícios e acordos, escondidos dos outros membros do próprio grupo) não apenas para conquistar um lugar de direito, mas para serem os únicos detentores de direito.
          Em alguns momentos esses grupos parecem mudar de lado, ou de grupo, apenas para sabotarem o grupo alheio e montarem os seus próprios grupos com filiados e simpatizantes reiniciando o processo.
          Houve, por várias vezes, tentativas bem-sucedidas de transpor o vácuo que os separa dos andares superiores, lançando para lá representantes munidos de cordões que permitiriam estabelecer um canal preliminar que neutralizaria o vácuo com a evolução dos contatos do alto com a base. Mas o que acaba ocorrendo é que, tão logo os representantes se sentem seguros, cortam os cordões com a base que os projetaram e se estabelecem em novas bases.
          Há os que se demoram a se ancorar e são puxados para o vácuo, mas são poucos. A grande maioria até consegue a façanha de inverter os cordões e, em vez de serem manipulados por eles, passam a manipular as bases através deles, ampliando a complexidade dos acordos de topo.
          Sim, mesmo no topo há conflitos muito fortes para manter os interesses próprios (não da base ou da empresa) ao ponto de ameaçar até mesmo os pilares do prédio quando as coisas passam dos limites. E quando percebem que estão sendo observados através do vácuo, parecem ficar mais furiosos, mais valentes, mais enfáticos nos seus discursos, como se tivessem sido eles que os escreveram, e não os seus colaboradores, como chamam os que estão aquém do vácuo e a uma ligação de prontidão.
          Existem, é claro, os micro acionistas que mantém a empresa funcionando com sacrifício que, apenas a eles, é exigido constantemente, seja pelos que estão lá no alto, seja pelos que esperam alcançar, também, o alto. Esses, além de contribuir com o dinheiro para manter a empresa funcionando, ainda contribuem com os produtos que produzem (e que algumas vezes até conseguem comprar para uso pessoal) e, por mais trapalhadas que as lideranças e representatividades cometam, conseguem ludibriar todos e manter as coisas dentro do esperado, ou quase.
          Há um monte de desocupados ultimamente, gente que perdeu a função por conta da turma para lá do vácuo, e que acaba sendo uma boa massa de manobra para a outra turma que está por lá e que resolveu virar a mesa, chutar o balde de champanhe e as telas de planejamento. Mas já entrou, pelo lado de cá, a equipe de contingenciamento dando ideias de como montar suas próprias equipes e... Bem, o senhor sabe, aquelas coisas de sempre.
          Talvez alguns acabem se superando ou escapando para as concorrentes, e outros retornem em algum ponto, ou posto, mas nada que não tenha sido previsto anteriormente. Isso tem funcionado bem para conter os custos de treinamento de alto nível, deixando que os interessados banquem seu aperfeiçoamento, reinserindo-os em algum ponto do processo seletivo.
          Como o senhor pode perceber, as mudanças de paradigmas objetivadas e cuidadosamente implementadas ao longo do tempo, já estão fazendo os efeitos esperados e até alguns inesperados, mas nada que realmente ameace o controle efetivo que exerce, ou sua invisibilidade.
          Anexo envio o relatório formal com todos os documentos necessários para as próximas fases de execução. As planilhas com os desvios que podem ser restituídos dos membros descartados e realocados para novos desvios e, não menos importante, uma solicitação de café de boa qualidade.
          Justifico esta última porque, além de servir, também faço uso do mesmo e não me agradou o que havia no estoque, que foi devidamente distribuído em todos os níveis para consumo.

Sem mais, despeço-me,

Auditora e moça do café
Nassua K. Ébon



(Danny Marks)

Dez Graças à Tragédia


          Antes de iniciar, é preciso advertir.
          Se está vivendo uma tragédia pessoal, procure alguém que possa lhe ajudar de forma profissional ou, no mínimo, vá ler coisas que pintem o mundo de cor-de-rosa ou outra cor suave que gostar, não encontrará isso aqui.
          Se acredita que a verdade precisa ser empunhada como uma espada que vai golpear por todos os lados as mentiras que encontrar, sem se preocupar com os danos causados, não perca o seu tempo buscando a moralidade por aqui. Ela não aparecerá em momento algum, pode acreditar, é a verdade.
          Feitas as advertências necessárias, podemos prosseguir tranquilos com a nossa argumentação que demonstrará, sem deixar dúvidas, o quanto a Tragédia tem feito, e faz, pela humanidade. Sendo por esse motivo que podemos afirmar, sem qualquer constrangimento, que todos amam a tragédia alheia.
          Provavelmente não foram os Gregos que inventaram a Tragédia, ela já existia muito antes disso, mas não se pode contestar que foram estes que mais contribuíram para a sua visibilidade e sucesso. Quando vemos as ruinas do Partenon; quando lemos os clássicos gregos e suas contribuições na literatura moderna; quando pensamos nos filósofos que debulharam as certezas da vida e desconstruíram mundo; como não recordar das tragédias?
          Vejam as Olimpíadas, inspiradas nas histórias trágicas dos heróis gregos da mitologia, e que até hoje ressoam pelos quatro cantos do mundo. Quantos lembram dos recordes batidos? Quantos comentam sobre os feitos sobre-humanos? Mas, pergunte sobre o mais recente escândalo envolvendo atletas, ou sobre aquela derrapada quando a vitória estava quase garantida. Qual ganha mais importância nas mentes e nos corações? A tragédia, é claro.
          A tragédia inspirou Shakespeare, que inspirou tantos outros depois dele. Quantas carreiras de sucesso ganharam maior impulso depois de uma derrocada fenomenal? De empresários que faliram a bandas que se desfizeram. Quando pensam em Beatles, lembram mais do encontro com a Rainha ou a separação e o posterior assassinato de Lennon? E o Nirvana? Tudo bem, ainda temos o secular Rolling Stones, mas pode ver, estão todos apenas torcendo para ver qual música vai tocar quando cair o pano.
          As tragédias inspiram o melhor dos sentimentos, todos estão dispostos a se solidarizar com a tragédia alheia, quando ela é longe o suficiente para não os afetar. Ou então rir descontroladamente, quando é próxima o suficiente para ser presenciada e não tão grave que precise de uma intervenção imediata.
          Sim, tragédia boa é aquela que não está nem perto, nem longe, demais. Ninguém gosta de uma tragédia muito próxima, invadindo o espaço particular, exigindo providências. É preciso que ela fique em outro lugar, onde se possa ir até lá, quando se está disposto a se envolver, mas de onde possamos fugir, caso ela comece a nos alcançar.
          Só quando a história é trágica e está além da margem de segurança é que ela nos encanta, nos enternece. Deixa espaço para que possamos verificar a nossa preservação e demonstrar a generosidade. Desejamos por algum tempo o sucesso alheio, para poder usufruir junto, mas acima de tudo, desejamos que os bem-sucedidos abram espaço para que possamos ocupa-lo. E como são poucas as chances de sucesso, sempre podemos comemorar quando alguns fazem o favor de, depois de terem indicado o caminho, se afastarem dele.
          Enganam-se os que dizem que não há pessoas dispostas a se colocar no lugar do outro. A verdade é que há muito mais dessas pessoas do que se possa imaginar, só que a grande maioria pretende tirar o outro de lá antes de lhe ocupar o lugar, desde que seja um bom lugar para ficar por algum tempo, até surgir o próximo. Ah, como não amar o próximo?
          Tragédias criam carreiras promissoras, que o digam os psicólogos, advogados, humoristas, artistas, pintores, escritores, médicos, bombeiros, empreendedores, e por aí vai. Nem vou falar dos ilícitos, que a política aqui é outra.   Criamos a nossa sociedade na certeza que alguma tragédia a fará evoluir, ou será tragicamente exterminada e substituída por outra mais trágica ainda. Não há como negar, a tragédia está em nosso dia a dia, nos dando motivos para conversas, para não sermos alvos dela, para demonstrar que ainda podemos fazer mais no pior, basta haver a chance.
          Poderia discorrer infinitamente sobre as oportunidades que as tragédias criam, como aquelas inumeráveis palestras que não levam a lugar algum, mas não será necessário depois de um argumento incontestável. Foi uma trágica explosão que criou tudo no universo, que desde então caminha sempre para a entropia total, onde nada mais poderá existir, nem mesmo a tragédia de recomeçar tudo de novo.
         

Danny Marks

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Anteontem

Anteontem morri, e ninguém ficou sabendo.
          Não fiz alarde algum nas redes sociais, nenhuma nota de falecimento previamente escrita, nem tarja preta, como nos remédios que sempre me causaram espanto. De quem será o luto que tais remédios carregam? Da mente ou da alma?
          Morri assim, silenciosamente, por achar que fiz por merecer mais que apenas um minuto de silêncio. Tantas coisas que calei e muitas mais que falei ao longo desse tempo. Algumas até foram ouvidas e causaram diferença na vida de outros que tenha encontrado por acaso ou sorte, e que se esvaíram no tempo.
          Morrer tem um sentido libertador, liberta a dor que insistimos em manter presa dentro de nós. Não mais sentir a angústia que seca nos olhos, por coisas que continuam a existir, apesar de nós.
          Aquele filme que tanto desejava ver, perde a cor. Aquela viagem que necessitava fugir, por outro será feita. Aquele livro interminável que alavancaria a carreira com suas exigências cada vez maiores, jamais será escrito novamente.
          Pode ser que ocorra um inesperado sucesso, ao descobrirem que o autor daquele romance que centenas disseram ter amado, embora a editora tenha faturado apenas dois exemplares, ganhe ares de um clássico e adquira um público que confessará, compungido, que conhecia o iluminado que o produziu.
          Pode até ser que gostem da obra fictícia, simulando a vida, que se apresenta nas redes sociais, como a pegar os peixes que nadam nesse mar de diversidades e semelhanças. Então, recordarão de postagens e palavras, reclamarão ensinamentos que possam ter ocorrido e se sentirão tocados pela santidade do além que a todos torna santos.
          Morrer no auge da saúde, que doença não manda aviso e quando chega não dá espaço para mais nada, reclamando a necessidade absoluta de decifrar o enigma da vida sob pena de devorar os que não o conseguirem.
          Nada é tão libertador quanto morrer, nem mesmo a descoberta daquele planeta que, se tornados luz, poderíamos alcançar em apenas quatro anos e viver outra vida, talvez. Quem sabe até refazer todos os erros na esperança que desta vez ocorresse algo inusitado.
          Não mandarão flores, não regarão os jardins, não lembrarão das gafes homéricas e das piadas engraçadas que só foram descobertas passado o momento de rir, mas vão rir mesmo assim, por educação.
          Enfim morto posso ler os livros acumulados de poeira, e se não gostar dos primeiros capítulos, descarta-los sem remorso. Não serão cobrados conhecimentos ou palavras gentis para obras horrendas. Não serão dados elogios merecidos também, basta-lhes apenas terem sido adquiridos.
          Números poderão ser abandonados displicentemente, datas, saldos bancários, quantidade de amigos, coisas relevantes que se superaram ou não. Apenas quantos por de sol e amanhecer que foram vistos. A Lua, assim maiúscula, naquela foto que não será enviada e permanecerá egoisticamente guardada na memória sem desbotar.
          Não causará tristeza as imagens de crianças violentadas pela burrice humana, ou as tentativas torpes de justificar cada erro e punir cada acerto, de acordo com as interpretações e vivências que os interesses delinearam em cada caráter, como tatuagem da vida, feita de cicatrizes imperceptíveis a olho ou à nu.
           Pode-se morrer todos os dias, na busca de descobrir o que realmente é importante na vida, ou permanecer morto por algum tempo, usufruindo da plácida tranquilidade que só se alcança com a percepção da finitude.
          Até que a vida nos puxe de volta ao seu redemoinho trágico, e nos cobre alegrias e atitudes que devemos inventar constantemente para satisfazer de alegria aqueles que nos querem felizes e produtivos. Que nos querem por perto, mas não tão junto que tenham que nos carregar consigo.
          Anteontem morri por breve período, apenas um ensaio a mais para o grande cair do pano que um dia virá, o retorno ao camarim para tirar a fantasia e limpar a máscara pintada no rosto e, quem sabe, no cantinho obscuro iluminado em frente ao espelho, ouvir os aplausos do público, ou vaias que possam ocorrer, mas que não alcançarão mais que a música que deixamos de ouvir.
          E, só então, pensarei em retornar.


Danny Marks

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Décima Volta do Parafuso

          Existe ainda hoje uma milenar sociedade secreta de místicos que busca incansavelmente descobrir os segredos do universo na linguagem que, julgam, seja a única que o universo utiliza para construir e, portanto, revelar seus padrões implacáveis: a matemática.
          Segundo uma análise dessa filosofia com a qual tive contato há tempos, o padrão é uma forma de tautologia, é voltar a dizer o que já foi dito anteriormente com outras palavras; ou no caso do universo, fazer tudo novamente de forma cíclica, eternamente voltando ao começo. Descobrir os padrões sobrepostos seria poder controlar os padrões e as sobreposições, criando o novo padrão.
          Um outro mago e escritor já foi duramente criticado por usar uma tautologia ao afirmar que nascera “há 10.000 anos atrás”. Não por ter feito uma afirmação controversa acerca da sua idade, mas por ter feito uma tautologia. Se é “há 10.000 anos”, não tem como não ser “atrás” já que o verbo utilizado nessa forma indica semanticamente o tempo passado, não o futuro.
          O mesmo poderia ser dito de “voltar atrás”, uma redundância de termos que dizem a mesma coisa, se volta, tem que ser atrás, não há como voltar para à frente, já que voltar significa implicitamente que se estava alinhado com um sentido que será revertido. Mas e se atrás for utilizado no sentido de buscar?
          Ou seja, voltou para buscar algo que havia esquecido, e esqueceu de o dizer. Então voltar atrás (de algo) não seria uma tautologia, mas uma filosofia de retomar o que deveria estar presente.
          O padrão seria justamente uma volta atrás que avança em algum sentido resgatando algo que já havia. E nesse ponto a minha cabeça começa a dar voltas também, como um parafuso que fica solto pelo aperto excessivo, cheio de voltas a serem dadas, mas que não avançam sobre nada. “Procrastinação” gritam os enfurecidos usuários de tortuosos pensamentos, que ignoro para prosseguir em frente, rindo descaradamente só para complicar ainda mais os paradoxos léxicos.
          Seria a linguagem do universo um parafuso que retorna ao mesmo ponto para avançar em algum sentido desconhecido? O futuro repetindo o passado com apenas uma ligeira espiral a indicar um avanço que não passa de uma ilusão de presente?
          Quantas justificativas poderiam ser dadas, nesse caso, revelando o motivo de, ao avançarmos tanto, não tenhamos saído verdadeiramente do mesmo ponto, apenas aparentando um progresso ilusório, onde as questões que sempre nos moveram, permanecem as mesmas.
          Avançamos no combate ao preconceito, e permanecemos preconceituosos de outras formas semelhantes. Avançamos nas tentativas de paz e até criamos uma guerra, para promove-la. Elegemos velhos políticos para substituir os atuais e esperamos que as coisas mudem. Resgatamos velhas ideologias que não funcionaram (ou não estaríamos com problemas agora) na esperança de que resolvam (desta vez) os mesmos problemas. Estudamos novas tecnologias que nos libertarão do trabalho e nos devolverão a vida que merecemos e trabalhamos mais para obtê-las ao preço de nosso tempo de vida.
          Tudo parece dar voltas e permanecer praticamente igual. A espiral que deveria nos levar acima, nos afunda e nos prende cada vez mais fundo. Então para prever o futuro bastaria olhar para o passado e dar-lhe roupas novas e coloridos que antes não haviam, mas que não alteram os conteúdos que apresentam. A história se tornaria o objeto de estudo das cartomantes.
          Retornar ao mesmo, parece ser a constante universal humana. Desde a retórica inventada pela filosofia dos gregos para desvelar a verdade oculta, até a reinicialização da matrix que recicla toda a realidade ilusória em que estamos, na verdade, presos irremediavelmente. Ou será que apenas tentamos descobrir novas soluções partindo dos mesmos elementos?
          Onde estaria a criatividade se tudo fosse o mesmo? A criação seria apenas uma releitura de tudo o que já existe de alguma forma, e nada de novo surgiria nesse paraíso onde a serpente esperaria pacientemente com uma maçã.
          Por certo essa questão é o que nos move desde tempos imemoriais, e provavelmente a solução será simples e óbvia, assim que a descobrirmos. Provavelmente estaremos repetindo o passado por simples medo de tentar algo completamente novo e desconhecido que possa nos destruir, e avançamos seguros para uma destruição conhecida e repetida à exaustão.
          Para que arriscar ficar pior? Tolos são os místicos que buscam descobrir nas linguagens matemáticas os segredos milenares, ou os cientistas que fazem uso dos mesmos instrumentos lógicos para tentar decifrar a mesma coisa, mas de uma forma diferente, com resultados praticamente iguais. Tautologia é o padrão que parece reger o universo pelo prisma da mente humana.
          Ou então, temos que nos reinventar de uma forma completamente nova, abrindo espaço para a incerteza de não saber hoje mais do que sabíamos ontem e nos deslumbrarmos com algo completamente inédito, que será imediatamente copiado e reproduzido a exaustão por todos os lados até acrescentar mais uma volta a espiral desse parafuso que parece infinito, e do qual ainda só atingimos, talvez, a décima volta, seja lá em que sentido estiver sendo pressionado.
          Ao menos teremos a certeza de que a vida é o que sempre foi, e se renova a todo momento, tentando, desta vez, fazer a coisa certa.


Danny Marks