Translate

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Esquadrão de Suicídas

          Sabe aquele filme? Vou falar dele, mas não se preocupe, não vou dar spoilers, não mais do que dizer que seria melhor que passassem o trailer no cinema e o filme no youtube.
          Está todo mundo dizendo, exceto, talvez, alguns que tentam amenizar as coisas, que o filme é muito ruim. E é, de fato. Não há como negar. Consegue cometer todas as falhas imagináveis e algumas nunca antes vistas na história do cinema. Deveria levar o troféu de filme trash que vai acabar virando cult de uma forma estranha, pode escrever.
          Vou apontar apenas alguns erros mais aberrantes, depois pode conferir se quiser, estão lá.
          Em primeiro lugar, o pior de todos: Menosprezar a principal característica que torna o famoso grupo de vilões dos quadrinhos um ícone emblemático, um arquétipo da literatura. Como assim?
          Pense, quais são os personagens principais em um filme de ação? Normalmente temos os heróis, aquelas pessoas que lutar com o risco de própria vida para promover o que a sociedade acha que é o certo, defender as melhores formas de se viver, os valores mais elevados da moral e da justiça.
          Não muito tempo atrás, criou-se uma figura mais sombria e tão emblemática quanto: O Anti-Herói. Não, ele não é o vilão, é aquele que está disposto a dar a própria vida para lutar pelas coisas que ELE acredita serem o melhor para a sociedade, apesar desta discordar na maioria das vezes. Usa de todos os recursos possíveis, até mesmo aqueles que seriam de uso exclusivo dos vilões, para combater...vilões.
          Mas a contracultura acabou desenvolvendo um outro tipo de personagem carismático. O vilão que luta contra vilões, e é perfeito exatamente por isso. Como assim? Verdade, o cara é um vilão que é forçado a lutar contra vilões para preservar o que acha mais importante para ele, a própria vida. Ainda que tenha que matar todos outros para conseguir se dar bem.
          Essa forma de personagem é uma evolução natural dos arquétipos que povoam as histórias ao longo da humanidade. Primeiro eram os heróis que tinham que superar os próprios defeitos para se tornarem um exemplo de ser para todos que almejam algo melhor. Depois surgiram os heróis que acabavam sucumbindo ao próprio poder corruptor e se tornavam vilões em suas próprias histórias.
          Por fim nasceram os anti-heróis que não negavam os seus defeitos, mas os utilizavam para promover um mundo em que acreditavam que as coisas seriam melhores, mais reais. A sua própria versão de um mundo melhor, e lutavam contra todos que simplesmente queriam destruir o mundo, seja por qual motivo fosse.
          Alguns vilões acabaram se tornando anti-heróis ao perceberem que não queriam destruir, mas reconstruir o mundo segundo as suas visões deformadas por traumas insuperáveis, apenas para continuar existindo.
          E então surgiram os Vilões que combatem vilões, sob o paradigma de que apenas um mal controlado pode combater um mal descontrolado, podendo ser descartado logo a seguir sem culpas. E é nessa linha que surgiu o Esquadrão suicida. Grande vilões capturados e subjugados, forçados a lutar contra forças nefastas para sobreviver, sendo obrigados a conviver com os seus desprezíveis companheiros enquanto isso for um fator que amplia as suas chances de ter sucesso em se libertar e continuar vivo.
          Querer transformar esse novo arquétipo em “anti-herói” é o mesmo que querer reverter os anti-heróis em personagens exemplares. Não convence, não funciona, quebra a magia arquetípica que é a base dessa ideologia. Uma fraca tentativa de dizer que o mal não tem espaço para existir no nosso universo.
          Não funciona porque basta olhar para o mundo do jeito que está e vemos claramente que o mal existe, e não necessita vir de outra dimensão ou de outro mundo. Está presente em cada um de nós e na sociedade como um todo, fruto do fracasso na convivência, do desastre da civilização que não consegue avançar diante de modelos falidos que tentam a todo custo se manter vivos, ainda que todo o resto morra, como os vilões.
          É justamente nessa realidade crua e cruel que está a base do carisma desse novo tipo de personagem. A identificação com o que cada um está disposto a fazer para superar o que quer que seja lançado contra o indivíduo disposto a tudo para sobreviver e, então, vencer no mundo caótico e desleal que tem que ser mudado.
          Outro erro cometido é algo básico. Se tem diversos personagens complexos para apresentar, deixe apenas a referência para que os interessados se aprofundem, assumam que aqueles que se interessaram em ver o filme conhecem, ao menos basicamente, o que vão ver. Criem meios paralelos para ampliar e facilitar essa divulgação, há vários. Ou façam mais filmes aprofundando as histórias individuais antes de apresentar o grupo. Fazer tudo isso junto é criar o que se chama de poluição de informação, não há tempo para se classificar e absorver tantas coisas e o resultado é superficial e trágico.
          Por fim, mas não menos importante. Quando se faz uma adaptação de uma história já conhecida, o ideal é tentar fazer o mais fiel possível ao que já está estabelecido. Bons atores aprofundam o personagem, captam as características mais marcantes e as desenvolvem, criando o seu modo interpretativo que deve convencer a assistência de que, sim, é aquele cara mesmo. Ter bons atores no elenco que simplesmente não incorporaram o personagem, é apenas ter um fracasso caro.
          Não vou nem falar do “Coringa” que aparece nesse filme. Me pareceu uma tentativa ridícula de resgatar o personagem da famosa “Piada Mortal” com um toque de amor romântico clássico (aquele que só se realiza na morte). Em primeiro lugar, todos sabem que o coringa é um personagem psicopata, não tem amor por nada que não seja relacionado a ele, para ele, a partir dele. Fazer um coringa apaixonado é desprezar toda a literatura psicológica sobre a psicopatia. No máximo ele estaria apaixonado pela sua “criação”, a corrupção de uma sociopata treinada em psicologia, a Arlequina, ou para os que conhecem a história, a doutora Harleen Frances Quinzel, que “desperta” sua sociopatia à partir da tentativa de curar o coringa, mas acaba caindo nas suas complexas redes de manipulação. A Arlequina não ama o coringa, é submissa a ele, e seu maior desejo é supera-lo para poder mata-lo, mas até lá, é obrigada a um amor corrompido na base da síndrome de Estocolmo. Ela representaria, na linguagem da psicologia, o superego de um psicopata. E vejam como é interessante esse veio não explorado em todos os nuances.

          Quem sabe as próximas produções sejam melhores, mas assim como no mundo real, na indústria cinematográfica os erros jamais são perdoados, ao contrário dos filmes em que esse tipo de milagre pode acontecer, se fizer por merecer.

Danny Marks

Apesar de Você

          Está virando moda no mundo todo uma frase que marcou a luta da música popular brasileira contra a ditadura: Apesar de você, amanhã há de ser um novo dia.
          Vamos partir do macrocosmo, lá do outro lado do mundo. Apesar do terrorismo que tomou conta de toda uma região, obrigando milhares de pessoas a largarem tudo e se arriscarem a viver em outro lugar (contra a certeza da morte se ficassem), ainda há os que encontraram forças para ir além e tentar concorrer na Olimpíadas de 2016.
          Apesar das terríveis advertências sobre a criminalidade, as doenças, as obras malfeitas, a desorganização e a quebra das promessas de infraestrutura nos locais dos jogos, as delegações vieram ao Brasil e vão lá ganhando os seus louros e construindo histórias de superação individual e coletiva.
          Apesar de todas as expectativas em contrário, a abertura dos jogos foi um show à parte que encantou o mundo todo pela sua beleza e simplicidade, com direito a expressão popular à política de micro discurso. O registro está feito e pode ser visto e revisto na implacável divulgação internética, um neologismo que apresenta a velocidade e invencível democracia dinâmica do novo mundo cibernético. Sem dó ou piedade, mas com lados antagônicos amplamente defendidos por bilhões de interpretações individuais que tentam conquistar o pódio olímpico.
          Qual a lição que fica diante dos resultados e dos discursos dos vencedores? Apesar de você. Os países que investem pesado em seus atletas, que criam programas e desenvolvem tecnologias para apresentar os melhores resultados, levam fácil o ouro. Para todos os outros, continua valendo a mesma lógica que os brasileiros estão acostumados a vivenciar no seu dia a dia: Seja um vencedor para ser um vencedor com apoio.
          Essa é a mesma lógica que empresas usam para exigir dos jovens candidatos, um alto grau de conhecimento e experiência, além de juventude e dinamismo. Só não dizem como é que um jovem que tem que escolher entre estudar muito para adquirir conhecimentos, conseguiria ter experiência só adquirível se tivesse um trabalho anterior, conseguiria fazer a junção entre os dois mais exigidos requisitos se um acaba por invalidar o outro.
          É fato que quem trabalha de dia e estuda a noite não tem tempo para fazer os cursos básicos, uma faculdade boa, e ainda estudar uma língua estrangeira. E se não trabalha, dificilmente terá condições de pagar boas escolas e, com certeza, não poderá adquirir a tão exigida experiência profissional. Quem tem que nascer primeiro? O ovo ou a galinha?
          Nesse caso a lógica é simples, a galinha tem que virar canja para que o ovo possa ter alguma chance. Ou em termos brasileiros, tem que dar um “jeitinho” de se inserir entre os bons para poder demonstrar o quão bom é.
          Mas ser bom não basta, sempre haverá um batalhão de inconformados que elevarão as suas vozes contra todo aquele que está tentando escalar com suas próprias mãos o paredão do sucesso, puxando suas pernas como se fossem zumbis vorazes por cérebros frescos. Superar isso e alcançar uma oportunidade já deveria valer por toda a “experiência” que fosse necessária, mas não funciona assim. Ainda tem que enfrentar os melhores de outros lugares mais privilegiados, que foram estimulados a serem os melhores, que tiveram todo o apoio necessário. São duas batalhas em uma, sendo que o adversário só vai lutar a segunda “de igual para igual”.
          Mas o mesmo vale para todas as profissões no Brasil. Vale para o empresário, vale para o administrador, para o professor, para o médico. Vale para o escritor, o jornalista, vale para o ator e para o cozinheiro. Só não vale para o político. Este só precisa querer fazer parte de uma raça a parte, ter aquela motivação de falar bonito e se apresentar sempre bem vestido, com ar de sucesso garantido. Nenhum diploma é exigido, nenhum talento é cobrado, nenhuma experiência é apontada como fator de sucesso. Convença os outros de que é, e será. Então poderá comandar todos aqueles que tiveram que suar sangue para alcançar alguma colocação melhor e poderá ser fotografado como um “apoiador” deste novo e deslumbrante talento, um símbolo que vai fazer brilhar o seu sucesso. Até que outro o substitua.

          E assim, o jeitinho vai sendo a regra e o Brasil vai avançando do jeito que conseguir se manter, apesar de todos os governantes incompetentes que tiver que encarar ao final de cada sucesso alcançado, não por causa deles, mas apesar deles. Esta não é uma terra para amadores, por certo.

(Danny Marks)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Mas quanto mais tem de menos?


          O Brasil está cheio de puristas, ao menos aparentemente.
          Essas figuras intransigentes que defendem com dureza a tradição irretocável dos discursos renascem a cada palavra estranha que aparece, ou quando há um interesse maior em defender a superficialidade do que se quer discutir.
          Quem não conheceu aquela pessoa que, já na infância, se esmerava em corrigir palavras ou frases ditas ou escritas para esgrimir sua superioridade, na língua? Talvez não muitos, hoje em dia, por conta dos aplicativos de celular que devoram e corrompem palavras a título de corrigir ou sugerir algo que permita uma maior rapidez na transmissão do pensamento.
          Cria-se a impressão de que dominar um vocabulário melhor, mais extenso e elaborado, é sinal de erudição, de um saber superior que deve ser respeitado. SqN (só que não) diriam os digitadores polegares. E, por vezes, há muita razão nisso. Basta observar o quanto fica raso um debate que tergiversa (enrola, fica rodeando sem aprofundar) em cima da forma como foram ditas as coisas e não com as coisas que foram ditas.
          Cada vez mais comum nos meios políticos, esse purismo da língua se torna a forma feroz de defender os interesses da nação, apontando para este ou aquele infortunado candidato a qualquer coisa com o dedo rígido da incompetência. Para que tantas pernas? Perguntaria o poeta.
          A lógica diz que, quando não se busca um aprofundamento no conteúdo, permanecendo apenas na análise da forma, é porque não se possui o conhecimento necessário, ou não se tem o interesse nessa iluminação do obscuros, sendo a superficialidade a melhor forma de se proteger em ambos os casos.
          Então, quando um político, ou adversário deste, se prende ao purismo nas frases e termos discursivos sem adentrar ao conteúdo oferecido (ou não) por estes, o que me vem à mente é justamente a incompetência sobre o conteúdo ou a falta de interesse em revelar algo que pode afetar a ambos, acusado e acusador, por algo que deve permanecer oculto aos olhos alheios, mas que são bem visíveis a ambos os lados.
          Perceba que quando um corrupto se defronta com outro, jamais vão falar em corrupção. Não se quer levantar questão sobre o tema. Então fala-se em “o que tem feito”, no sentido de obras públicas, deixando a ameaça implícita apenas ao outro sobre as obras ocultas. É nesse ponto que os verdadeiros puristas da língua, analisando os discursos dariam o veredito de que o “mas” (no entanto, por outro lado, alternativamente) é substituído de forma consciente ou inconsciente pelo “mais” (somatória, acréscimo) para gerar forma tergiversativa no discurso do que não se quer dito de forma clara, mas que se deseja que seja apreendido (percebido) pelos defensores ideológicos defenestradores (ato de lançar violentamente de uma janela ou local elevado, ao chão) do discurso alheio.
          Quando a violência se expressa em minucias (coisas mínimas) deixando de lado os pontos mais importantes, fica claro, para quem quiser entender, que não há objetivo em propalar (divulgar, tornar público) a verdade, apenas se agarrar em algo que não se torne uma arma voltada contra si.
          Suicídio não vence batalhas, e a cada dia mais, fica evidente esse fato para os dirigentes dessa nobre nação miscigenada na raça e na língua, que ainda é viva, no sentido de que se renova constantemente, mas ainda precisa de muito para ficar viva, no sentido popular de experta.

          E depois me perguntam: Mas, o que isso tem de mais?

Danny Marks

domingo, 14 de agosto de 2016

Conspiração: Uma Teoria

Introdução

          Vivemos na era da informação, portanto era de se esperar que as Teorias da Conspiração cairiam em desuso tanto no mundo real quanto na sua interpretação, o mundo das artes. Só esta frase já deveria denunciar o absurdo da afirmação, pois, em essência, é uma teoria da conspiração.
          Para entender o princípio de uma Teoria da Conspiração (TC) é preciso mergulhar em uma característica da mente humana, o reconhecimento e interpretação de padrões a partir de análises pré-concebidas. Essa ferramenta evolutiva é que permitiu a sobrevivência da espécie habilitando os portadores dessa característica de sobreviver em um mundo em que não havia tempo hábil para analisar se um perigo era real ou imaginário partindo de informações mínimas, como um som de galho quebrando, um arrepio instintivo, uma ausência de sons da natureza, etc.
          O predador estava sempre por perto, mas nem sempre visível, e poderia em um golpe repentino acabar com os menos vigilantes e desconfiados. Essa paranoia natural da vigilância influenciou a evolução humana de forma que pudesse sobreviver, mas também criou ferramentas de controle, de manipulação, de ajustes da própria condição humana.
          Quando a sociedade como a conhecemos foi instituída, os predadores mudaram e se adaptaram. A Polis obrigava a um novo tipo de relacionamento de comunidade que obrigava a determinadas regras públicas, a política, a arte de conviver com os semelhantes.
          Como todas as coisas que sobrevivem, sejam organismos vivos ou ideias, essa ferramenta evolutiva também evoluiu e adaptou-se ao meio. A história humana nos conta sobre os diversos complôs, esquemas subterrâneos que visavam alterar a ordem estabelecida, mudar os agentes supremos e recriar sociedades e parcerias. Como não poderia deixar de ser, a arte sempre buscou apresentar e reinterpretar a visão de mundo, permitindo revelar o que sempre se buscou ficar oculto e, para tanto, utiliza-se muitas vezes dos próprios princípios que pretende denunciar, até para desvelar melhor os seus mistérios.
          As primeiras TC do mundo artístico eram transmitidas de forma oral, ganhavam corpo e formas diversas na tradição cantada e contada, criando o que hoje chamaríamos de “lendas urbanas”. Eram excelentes formas de gerenciamento, transmissão de conhecimento e preparação para o difícil mundo de conviver com o poder subjetivo e efetivo a que a grande maioria das pessoas estava submetido. Mascaradas em mitos, fábulas, histórias de aventura e histórias morais, revelavam o que de outra forma não poderia ser dito, brincando com os medos e as verdades estabelecidas, encantando da mesma forma os algozes e as vítimas e, desta forma, sobrevivendo a qualquer tipo de controle, embora sendo ferramentas de controle.
          Neste trabalho serão reveladas algumas características básicas das TC e como são utilizadas para diversos fins, em especial a construção de textos literários ao longo dos tempos e suas diversas possibilidades e intersecções.

Estrutura de uma Teoria da Conspiração.

          Desde a mais simples até a mais complexa TC é necessário que haja uma estrutura elementar, que sustente de forma adequada todo o conjunto de intencionalidades e induções a que se destina. Sem esses elementos fundamentais teremos qualquer coisa semelhante, mas nunca uma teoria da conspiração.
          — Princípio da Universalidade – para funcionar adequadamente, uma TC precisa ser universal, ou seja, abranger de alguma forma conceitos que atinjam de igual forma todo o grupo ao qual atende.
          — Princípio da Realidade – sempre terá suas bases, por mais fantasiosos que forem os desenvolvimentos posteriores, na realidade e serão facilmente comprováveis os seus fundamentos mais poderosos. Sem esse apoio da verdade comprovável, tende a desmoronar sobre o peso de suas argumentações.
          — Principio da Simplicidade – Talvez o mais importante para que seja difundida, se baseia no fato de que precisa ter aceitação pelo maior grupo de indivíduos afetados de forma rápida. Portanto, por mais complexa que seja a TC ela será dividida em camadas consecutivas de forma que haja um aprofundamento gradual possível dos conceitos aplicados de forma que sempre pareça acessível aos que tiverem o interesse de mergulhar pelos seus subterrâneos. Qualquer indivíduo pode ir descortinando os seus segredos e “vendo” o que estava oculto aos demais. Esse fator de sedução e diferenciação do adepto contra o resto da sociedade o torna um conspirador favorável ou contrário, dando uma aura de mistério e carisma insuperável.
          — Principio da Solução – Aqui reside a força da TC. A capacidade de qualquer conspirador, favorável ou não, de solucionar os seus mistérios, ainda que de forma parcial. Funciona como um labirinto onde possibilidades diversas conduzem a finais alcançáveis mediante as capacidades dos investigadores. Todos que se dispuserem a buscar, encontrarão algo no final do percurso, ainda que seja um engodo criado apenas para satisfação dos que tentam destruir a estrutura principal. Uma boa TC tem que ser trabalhada como uma teia em que as estruturas secundárias suportem rompimentos de grandes seções sem desmontar completamente, até mesmo usando esse desmonte como um mecanismo de proteção e aprisionamento do investigador.
          Existem outras estruturas que poderiam ser descritas, mas apenas utilizando os Princípios elencados já é possível ter uma ideia de como funcionam.

LENDAS URBANAS

          Algumas TC se tornam clássicos populares, costumam ser simples e divertidas em suas formas didáticas de inserir valores relativos para a sociedade. É o caso, por exemplo, do “Pipoqueiro do Mal”, aquela figura simpática que fica em lugares públicos, normalmente próximo a escolas infantis, que adiciona drogas viciantes no seu produto, obrigando os incautos a comprarem sempre mais para suprir as necessidades do vício.
          Os fatos reais são fundamentados na oferta de produtos viciantes, que tornam uma ação altruísta algo nocivo. Brinca com a questão de que devemos desconfiar de tudo que nos é oferecido sem custo. Sobrevive na realidade dura das cidades onde traficantes verdadeiros oferecem a “prova” das drogas ilícitas para depois cobrarem altos custos dos viciados. Apesar disso é desmontada com facilidade diante de um raciocínio lógico: O custo da droga misturada à pipoca é muito superior a qualquer quantidade de pipoca vendida posteriormente.
          Mas o raciocínio se sustenta pela forma da metáfora, onde a “pipoca” pode ser qualquer coisa, desde o brinde de um pacote de figurinhas que só se justificam na compra do álbum e nas figurinhas que terão que ser compradas para o completar, até um animal de pelúcia na aquisição de um carro zero km.
          Esse princípio é o da “isca”, usa-se algo de valor intrínseco para atrair um consumo não desejado de algo que supera e inclui o valor do brinde ofertado. Quem nunca acabou “fisgado” por algumas revistas “grátis” na assinatura dos novos exemplares, ou por uma “prova” de algum produto se entrar na loja para comprar algo? Esses recursos são amplamente utilizados e permanecem vivos porque produzem efeitos válidos.
          A lenda urbana do “Pipoqueiro do Mal” atinge o Princípio da Universalidade porque age diretamente na questão dos ícones da infância, qual a criança que não gosta de pipoca? O pipoqueiro está presente em todas as atrações mais divertidas, do circo ao cinema, do passeio no Zoológico à praça com brinquedos.
          O Princípio da Realidade é satisfeito pela questão de que não se sabe o caráter da pessoa que vende a pipoca. Não há como definir se aquela pessoa é alguém “do bem” só pelo ofício que exerce. Não se exige qualquer especialidade para exercer a profissão de pipoqueiro e é, normalmente, algo que passa uma imagem de inocência e confiabilidade.
          O Princípio da Simplicidade e o Princípio da Solução são satisfeitos pelo fato de que seus elementos compositores são tão profundos quanto se quiser aprofunda-los. Como foi dito anteriormente, seria ridículo contaminar as pipocas com drogas para aumentar o consumo, o custo x benefício seria comprometido, portanto a teoria se desmonta. Porém, por ninguém desconfiar do singelo pipoqueiro, ninguém vai pensar que ele pode ser um espião vigiando abertamente um local ou pessoas, ou mesmo que ele pode ser algum agente interessado em causar o pânico contaminando as pipocas com algum vírus que se disseminaria rapidamente pelo agrupamento. Poderiam ser inseridos contextos de complexidades diversas a partir do inocente pipoqueiro, e ainda teriam a proteção do “desmonte” programado. Quem iria acreditar no pipoqueiro envolvido em uma grande conspiração?
          Basta lembrar que um bom labirinto não apenas torna os caminhos semelhantes, mas induz a determinadas saídas e soluções que “desvelam” seus segredos, enquanto na verdade estão apenas escondendo à vista de todos o verdadeiro tesouro que guarda.
          Na TC não apenas o que é oculto tem importância, mas também o que é revelado, a forma como é revelado e quando é revelado, que muitas vezes servem de truques ilusionistas para desviar a atenção enquanto a verdadeira ação está acontecendo sob os olhares de todos, como um truque de mágica, até que seja tarde demais para impedir-se os efeitos. Essa estratégia é chamada de Camada (des)Informativa e trataremos dela a seguir.
CAMADAS (des)INFORMATIVAS


          “E conhecereis a verdade, e a verdade voz libertará” (João 8:32).
          Há milênios que o pressuposto do conhecimento da verdade traz a libertação, mas há alguns problemas nisso. O primeiro é definir o que é verdade.
          A Filosofia, mãe de todas as ciências, tenta até hoje chegar a um conceito que explicaria o que é a verdade. Dependendo de como se busca o conceito do que seria a verdade, ela assume aspectos diferentes e, ainda assim, válidos. Por exemplo: a verdade pode ser material, formal, analítica, sintética ou sofisma.
          Para complicar, até mesmo o que concebemos como realidade é subjetivo, depende dos sentidos, da interpretação destes por um conjunto de interações no cérebro, e por aí vai.
          O mesmo ocorre com a liberdade. O que seria? Não há uma conclusão final, porque na maioria das vezes chega-se a uma liberdade parcial. Então, do que a verdade nos libertaria? Para quê?
          O que isso tem a ver com a Teoria da Conspiração? Basicamente, tudo.
          Uma TC não lida necessariamente com a mentira, ao contrário, as melhores lidam justamente com a liberação da verdade. Uma mentira é difícil de ser mantida por muito tempo, por um grande número de pessoas. Quanto maior o tempo e o número de pessoas envolvidas, mais breve será a mentira e mais rapidamente desmascarada. Por outro lado, uma verdade parcial, apresentada de forma a formar conceitos incorretos, pode durar longamente e se tornar ainda mais forte com o número de pessoas que a propagam.
          Uma meia-verdade é muito mais eficiente que uma mentira, mais difícil de ser desvelada, mais forte e, principalmente, melhor aceita. Isso porque há fatos que demonstram a verdade apresentada, afinal é uma verdade, mas por ser incompleta, manipulada, indutora, serve a interesses de quem a manipula, não é livre e não liberta ninguém, na verdade, acorrenta ainda mais forte.
          Assim como a verdade é uma construção que pode ter camadas específicas ou camadas amplas, onde novos conhecimentos se somam aos já adquiridos; a TC também tem camadas que podem ser bem rasas, bem específica, e se completam e se reforçam em esquemas muito mais complexos.
          Na verdade, quanto mais complexo o mundo se torna, mais fácil se torna construir uma Teoria da Conspiração. Quanto mais informações são divulgadas, mais complexo se torna descobrir as meia-verdades que abrigam, as manipulações que escondem ou que provocam. Isso já está arraigado na coletividade, entranhado no sistema amoral da construção da sociedade.
          O que são as lendas, as histórias infantis, as ideologias religiosas ou não, os discursos motivacionais, etc., senão meia-verdades que se utilizam para atingir fins desejáveis? Quem não se sentiu confortado por uma “mentira sincera” diante de algo trágico e insuportável? “Vai melhorar”, “Não tema, vai dar certo”. Como assim? Como fazer afirmações que não podemos provar, até que as façamos acontecer? O que é omitido é a verdade que “Se não melhorar, não vai precisar se preocupar mais, pois terá sido o fim”, então é preciso acreditar que sim, as coisas podem estar ruins, mas enquanto não se desistir, há esperanças de que melhorem com o nosso esforço. A partícula da verdade liberta do desastre total e manipula em direção a solução, tornando uma meia-verdade em um fato utilizando as ferramentas da TC.
          Isso nos leva a pensar que o objetivo de toda TC é a sobrevivência daqueles que se servem dela, independente dos valores morais que os motivam. Portanto a TC é uma ferramenta intelectual, não um organismo com vontade própria com fins específicos e objetivos. É uma ferramenta de sobrevivência e, portanto, extremamente versátil.
          O mais interessante é que, por ser uma ferramenta de sobrevivência, está sujeita às leis da evolução, ou seja, precisa se adaptar e evoluir ou será extinta. Isso é facilmente comprovável quando se faz uma pesquisa histórica. Nada melhor para determinar a evolução e adaptação de alguma coisa que fazer uma pesquisa histórica.
          A Teoria da Conspiração está tão entranhada no desenvolvimento das sociedades que é impossível separa-las. Grupos, cidades, reinos, nações, sociedades inteiras foram fundadas e derrotadas por conspiradores. Conspirações ergueram e derrubaram impérios, basta ver o caso dos Romanos, dos Gregos, na antiguidade. Casos como o de Cortez são emblemáticos, onde a derrocada de um império se deu pela manipulação dos próprios pilares que o mantinham. As máfias da modernidade e as sociedades secretas são exemplos dessas manipulações de mão dupla.
          Chegamos a época em que a informação está de tal forma acessível e disseminada pelo mundo que é praticamente impossível esconder a verdade, a menos que seja por baixo de outras verdades, pela intoxicação de verdades seletivas ou insuportavelmente realistas, pela enxurrada constante de verdades que anestesia e impede um raciocínio prolongado.
          Na era da informação que prometia unir o mundo, finalmente acessível a todos, sofremos cada vez mais um isolamento, uma desesperança. Somos cada vez mais manipuláveis pelas tendências e pelos “movimentos coletivos”, nossas vozes se perdem no grito da multidão. Criamos voluntariamente barreiras contra o excesso que nos inunda e nos sufoca e, deixamos brechas abertas por informações livremente apresentadas para nos sentirmos parte de alguma coisa que se fragmenta na imensidão da coletividade. Quanto mais fazemos parte de algo maior, menor nos sentimos diante do todo, desvalorizando o nosso próprio potencial de intervir.
          O que uma célula em um corpo pode fazer para alterar a realidade do todo? Em uma palavra? Contaminação. É assim que um câncer se forma e se dissemina. É assim que um vírus derrota um organismo bilhões de vezes mais complexo e capaz de feitos incomparáveis.
          É preciso aprender como funciona essa ferramenta evolutiva, a Teoria da Conspiração, para poder impedir que se torne um câncer, e se torne um fator de cura; para impedir que se torne um vírus que destrói o hospedeiro, e se torne uma vacina que impede que fiquemos doentes.
          E assim encerramos esta breve explanação sobre as bases da Teoria da Conspiração e passamos a apresentar algumas possibilidades, também teóricas, da sua aplicação. Podemos ser autores, atores ou figurantes, mas não podemos nos furtar a sofrer as influências dessa ferramenta que, de alguma forma, definirá os rumos futuros da humanidade, como vem fazendo desde os primórdios.

A CONSPIRAÇÃO AOS OLHOS DE QUEM VÊ

          Como foi dito anteriormente, uma TC precisa ser simples, induzir algumas soluções parciais satisfatórias, ocultar camadas cada vez mais complexas, lidar com a realidade e com a verdade de forma que estas se tornem a sua base de sustentação adequadamente manipuladas para construir uma ficção que se assemelha muito à verdade e que, quando desvelada, ainda se mantém consistente em diversos níveis, como uma teia que mesmo tendo boa parte de sua estrutura destruída, ainda se mantém estável e cumprindo o seu papel.
          Dito dessa forma parece algo complexo demais, fruto da genialidade de algum arquiteto maquiavélico com capacidade de elaboração extremada. Não é. Qualquer um pode construir uma boa TC simplesmente a partir de elementos que são dados na realidade, acrescentando pitadas imaginativas de interpretação direcionada.
          Vamos fazer um exercício para comprovar isso. Vamos construir camada a camada uma trama complexa que se fundamenta em diversas teorias da conspiração possíveis, mas que neste caso serão totalmente inventadas por este autor para a demonstração prática de como é possível fazer. Obviamente, por mera questão de praticidade e agilidade, será apresentada apenas a estrutura elementar das diversas camadas, até porque não se deseja criar de fato conspiradores, mas estimular artisticamente as possibilidades criativas e argumentativas na criação de histórias fictícias com base na realidade observável.
          O melhor ponto de partida argumentativa para uma TC é justamente um cenário real onde exista algo nebuloso e não completamente explicável. No caso vamos nos apropriar do cenário político brasileiro da atualidade. Escândalos políticos são ótimos para se construir teorias conspiratórias, ainda mais quando envolvem denúncias de corrupção. Parece meio óbvio e ultrapassado, afinal, esse tipo de cenário é mais comum na história das nações que se desejaria reconhecer, mas vamos aplicar alguns elementos diferenciais.
          Pode-se começar de qualquer ponto a construção da TC, mas para atender os princípios da Universalidade e da Simplicidade é necessário que seja algo que afete a todos e que seja um tanto quanto óbvio, ao menos a princípio. Essa é a “isca” para que seja propagada e incite a busca das camadas ocultas. Então vamos usar o caso ainda corrente do impeachment do governo.
          Depois de um longo período em que um partido popular de ideologia socialista ter presidido o governo com pontos altos e baixos, como é comum a qualquer governo, há uma reviravolta estrondosa com denúncias e escândalos imensos afetando toda a economia e criando uma instabilidade política e social de proporções nunca antes vistas. “Nunca antes vistas” é uma frase recorrente nas teorias conspiratórias, dá uma ênfase na enormidade do problema apresentado e indica subjetivamente que, finalmente, toda a verdade está sendo revelada. É importante estar atento a essas frases de efeito porque boa parte das teorias conspiratórias utilizam discursos semelhantes com a manipulação das palavras de forma eficiente e sempre provocativas de estados emocionais. É preciso que seja provocada uma emoção forte na construção de uma TC, só a emoção consegue amortecer a razão de forma que se possa induzir comportamentos que, racionalmente, não seriam cabíveis. A TC precisa de paixão no seu desenvolvimento, na sua apresentação, na sua disseminação.
          Então temos lá o tal governo popular, que se torna populista na apresentação pelos seus adversários, com o detalhe de que há uma descaracterização seletiva. Isso é importante, note bem o termo, descaracterização seletiva. Como isso funciona? Em primeiro lugar se generaliza a atuação do governo apresentando todos os malefícios como sendo provenientes de uma única pessoa, partido ou ideologia, ignorando que em um sistema de governo democrático há a necessária coabitação de diversas ideologias e partidos que fazem acordos para que haja a chamada governabilidade, portanto, seja pela ação ou pela omissão, todos os partidos estão envolvidos nos atos apresentados categoricamente como sendo de um único governante ou partido. O mesmo se dá, pelo oposto, quando os resultados alcançados são desejáveis, não foram as coalizões dos partidos, até mesmo adversários, que promoveram o sucesso, foi apenas “O Governo”.
          Como já havia alertado, a ferramenta da TC funciona independente dos valores morais de quem as usa. Ferramenta não tem intencionalidade, podendo ser bem utilizada ou não na realização de um trabalho, de acordo com a habilidade e o interesse do executor e manipulador da mesma.
          Entra em cena a questão primordial da TC, o “motivo” que culminou com os fatos apresentados. “A quem interessa? ” No caso, quem teria interesse em destituir um governo eleito, ameaçando a economia, o sistema político, até mesmo as negociatas escusas que ocorriam? É preciso pensar que muitos das negociações mais sórdidas e mesmo as piores guerras entre bandidos se dá de forma oculta, justamente para que os vencedores, sejam quem forem, não fiquem expostos e possam continuar suas atividades tranquilamente. A lógica é que podemos não gostar da nossa posição no sistema, mas não podemos desmontar o sistema sem sermos afetados pela instabilidade e, pior, nada garante que o novo sistema que será construído necessariamente nos beneficiará de alguma forma. Por essa lógica é que é difícil desmontar um sistema de dentro, a implosão acaba afetando dramaticamente os que a provocam, e todos sabem que para desmontar um sistema de fora, é preciso que se tenha algo tão forte e poderoso quanto o que se quer destruir, ou até mais forte e poderoso. Troca-se seis por meia dúzia, como se diz normalmente.
          Essa verdade é, como em toda TC, parcial. Pode-se desmontar um sistema de dentro, ou mesmo substitui-lo completamente por outro, desde que seja feito de um nível superior. No caso o que é mudado é apenas uma camada, não o sistema inteiro, mas fica-se com a impressão que “as coisas mudaram”. E isso pode ser extremamente vantajoso para o próprio sistema, restabelece a confiabilidade que estava prejudicada, paralisa investigações mais profundas que podem ameaçar as estruturas mais fundamentais. Sacrificar parte do próprio corpo para conseguir sobreviver é uma estratégia utilizada na própria natureza com bons resultados. Como costuma-se dizer, o lagarto perde o rabo, mas preserva os dentes; na verdade, diante do predador mais forte, oferece o rabo como barganha e assim que o adversário pensa tê-lo preso firmemente, escapa deixando o rabo para trás. Isso deve provocar uma nova interpretação da famosa expressão conspiratória de “estar com o rabo preso”.
          Ok, voltando a nossa linha central, a quem interessaria a desestabilização de um governo e de toda a estrutura sócio-politica? Em primeiro lugar podemos pensar em um governo estrangeiro, seria o mais comum, afinal é obvio que um adversário forte é temerário e a desestabilização provoca fraquezas, mas cuidado com as obviedades em uma TC, elas costumam ser projetadas para serem assim. Também podemos pensar em setores internos do sistema, como uma revolução, sociedades secretas anarquistas, sociedades políticas desfavorecidas e pouco atuantes no cenário estabelecido, até mesmo o crime organizado, as máfias corporativas ou não; qualquer um desses casos obteria grandes benefícios com o enfraquecimento e desmonte do sistema. O caos cria oportunidades, isso é um fato trágico na história da humanidade. Não se observa maior avanço tecnológico do que em períodos de instabilidade e até mesmo de guerra declarada e não apenas pelos agentes óbvios que subsistem de ganhos diretos relacionados, como produtores de armas. Muitos dos avanços da atualidade em todas as áreas, são frutos bastardos dos esforços da Segunda Grande Guerra, por exemplo.
          Pense no fusquinha, na internet, na medicina nuclear, na exploração espacial, nos satélites, nos antibióticos, nas vacinas, nos sistemas gerenciais. Seja onde for que vá buscar as raízes de alguma tecnologia que avançou rapidamente, vai acabar encontrando fins bélicos. Grandes empresas incentivam abertamente a agressividade nos negócios como incentivadora de avanços. Aparentemente a criatividade se torna mais forte em períodos de crise generalizada. A crise, o caos, as desestruturações, geram bons negócios.
          Estamos falando de Teoria da Conspiração, certo? Pois então é preciso entender que esse discurso é em si, uma, globalmente aceita, e tem bases na realidade como é típico de toda bem construída TC. É inegável que a sobrevivência é um grande estimulador da criatividade, mas a competição não precisa implicar em belicismo, haja vista que o esporte é uma forma de competição que, preservados os seus princípios básicos de superação pessoal, não tem características bélicas. Portanto, cuidado quando incorporar um discurso manipulador como o apresentado, sem que se perceba está fazendo parte de uma grande conspiração que tenta justificar o injustificável sob qualquer outro prisma.
          Voltando ao nível primário da nossa TC imaginária. A instabilidade que constantemente vemos noticiada, poderia ter por base tanto uma reforma política desejada pelos próprios políticos, estimulada por empresários, desejada por segmentos organizados oriundos da sociedade interna ou até mesmo por interesses de outros governos. A instabilidade obriga mudanças, obriga reinterpretações, obriga repactuações e negociações. A instabilidade prolongada causa danos e, em algum momento, precisa ser revertida. Seja em um novo rumo, seja nos mesmos moldes, mas com aparência de mudança, do contrário torna-se autoimune, agride a si mesma e, se não for tratada rapidamente, implica na morte de toda a estrutura que pretendia favorecer.
          Só essas bases apresentadas já dariam boas histórias conspiratórias, mas vamos aprofundar um pouco mais. Vamos colocar elementos geopolíticos mais amplos. Continue acompanhando neste mesmo local a continuidade deste trabalho e descubra como acrescentar mais camadas na Teoria da Conspiração, integrando-as no que já foi apresentado e ampliando o foco ao mesmo tempo que descemos ao mais profundo subterrâneo do indizível.


PIRÂMIDE DA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO.

Anteriormente apresentei as bases gerais da construção de uma Teoria da Conspiração, bem como a forma de se criar camadas que manipulam as informações e induzem as perspectivas gerenciáveis. Foi apresentada uma TC baseada em fatos locais facilmente reconhecíveis, com alguns questionamentos válidos que poderiam ser trabalhados no seu desenvolvimento ficcional. Agora a proposta é ampliar o foco e aprofundar ainda mais a complexidade e descer aos níveis mais profundos possíveis. Para isso será necessário observar alguns outros elementos que vão aos poucos construindo o nosso panorama geral ao mesmo tempo que servirão de bases para a ampliação, reformulando o entendimento do que já havia sido apresentado e obrigando uma nova perspectiva e reinterpretação.
Observemos as crises em vários países e até mesmo em blocos econômicos. O Mercosul que até hoje não decolou, a crise na Síria que desestabilizou a União Europeia, o terrorismo internacional.  Como juntar tudo isso em uma TC que ampliaria em diversas camadas a nossa base local? Como fundir a crise brasileira em uma crise global, com interesses particulares extremamente complexos e verossímeis?
          Basta acrescentar um elemento comum a todos, algo tão grande e insuperável que obrigue a medidas extremas, complexas, de curto, médio e longo prazo. Não vamos falar em guerra global. Quando as armas nucleares entraram no cenário foi necessário rever essa forma de atuação, a “Guerra Fria” foi uma solução paliativa que acabou se tornando obsoleta e revista no seu devido tempo e embora tenha rendido boas histórias conspiratórias, precisou evoluir. É preciso pensar em algo que motivasse governos em diversas camadas conspiratórias, algo que fale diretamente na questão da sobrevivência pessoal e global em níveis incontestáveis quanto a necessidade de medidas extremas e que não provoque nada semelhante a um conflito armado global. Mas o que seria?
          Posso começar pelo óbvio e pensar na superpopulação do planeta. Na crise cada vez mais grave no gerenciamento de recurso finitos. Não importa o quão rápido a ciência gere recursos, em algum momento não teremos espaço para tantas vidas, não teremos como sustenta-las com alimentos, com expectativa de vida minimamente razoável. Quando populações inteiras são submetidas a condições de vida precárias há necessariamente a revolta, seja local, seja internacional. Alguns dirão que isso já foi revisto, que as técnicas de produção, armazenamento e distribuição evoluíram de forma a jogar para um futuro indeterminado essa necessidade de rever as políticas de natalidade globais. Será? Em se tratando de uma TC sempre é preciso cuidado, poderíamos pensar na manipulação de informações, programas de desestimulação de famílias grandes, revisão dos comportamentos sexuais para fins não reprodutivos. AIDS entraria facilmente nessa lista, apoio ao homossexualismo, incentivo a busca da realização pessoal individual. Tudo pode ser utilizado para questionar as intenções por trás de políticas globais e lançar dúvidas argumentativas perfeitamente coerentes, mesmo que totalmente erradas. Gerar a desconfiança é tão útil quanto promover certezas quando se trata de construir teorias conspiratórias, as realidades podem ser facilmente torcidas e distorcidas para atender os objetivos dos conspiradores.
          Então vamos buscar alguns elementos históricos. Lembre-se que uma boa TC precisa gerar sentimentos fortes para reduzir a intervenção racional. Tivemos a crise na Etiópia que gerou uma comoção mundial, foram feitos bons negócios para aplacar a fome na África e mitigar os espíritos mais privilegiados de condições. E ainda assim, há fome na África e em outros lugares do mundo. Os corações abertos foram se fechando aos poucos, assim como os bolsos, quando as epidemias começaram a se alastrar de forma global, muitas delas à partir da própria África. Ebola, AIDS, Gripe Aviária, Gripe Suína, Vaca Louca, só para citar as mais famosas, provocaram ações antes impensáveis. Em tempos de crise alimentícia no mundo todo, toneladas de alimentos foram sistematicamente destruídos, segmentos sociais excluídos e olhados com desconfiança, o medo se alastrando e exigindo soluções desesperadas antes inconcebíveis.
          Quem foi capaz de pensar em genocídios seletivos através de doenças sistematicamente desenvolvidas para mitigar os efeitos da superpopulação no planeta, ao mesmo tempo em que bons negócios proliferavam devido à crise de abastecimento de alimentos e até mesmo de remédios, pode pegar seu diploma de conspirador, e esconde-lo para não se revelar. Sim, essa é uma boa argumentação para mais uma camada conspiratória que se liga ao momentum local. Basta consultar os arquivos históricos e elaborar suas teorias utilizando como bases empresas multinacionais, pan-nacionais e governos corruptos, fatos noticiados alimentariam facilmente milhares de histórias conspiratórias com cenários locais e/ou internacionais.
          Mas é possível outras abordagens mais dramáticas, mais profundas e, porque não dizer, mais sórdidas. Afinal estamos adentrando os subterrâneos mais profundos das Teorias da Conspiração e o Inferno é o limite, certo? Para ir mais fundo é preciso ter uma percepção mais crua, mais dramática e desconstrutiva dos valores humanos. Precisamos mergulhar fundo nas piores possibilidades da crueldade humana, no egoísmo alienante que beira os limites da sociopatia. Eu digo limites porque nem todos conspiradores são sociopatas, é importante destacar que a ferramenta da TC não age apenas na vítima, mas no próprio executor. Com argumentos bem convincentes é possível que o próprio conspirador passe a acreditar na mentira que propaga, justificando até mesmo para si os seus atos condenáveis, o que não seria necessário no caso de um legítimo psicopata.
          Diferentemente da psicopatia, em que a ausência do reconhecimento dos sentimentos do outro e da possibilidade de empatia, impede um convívio social saudável, a sociopatia se desenvolve na alienação em relação a segmentos sociais. Um sociopata é capaz de conviver muito bem com os seus semelhantes, mas se exclui de todo o resto da raça humana por se considerar acima destes. Se considera como alguém que merece ter a sua sobrevivência assegurada por ser essencial ao projeto de humanidade que se molda aos seus interesses. Portanto acha totalmente justificável sacrificar inocentes para que se salvem alguns. Notavelmente essa linha de pensamento já demonstra a sociopatia implícita no discurso de que “se tiverem que morrer alguns inocentes para preservar a ordem, que seja”. Como o sociopata não se julga inocente, de certa forma se exclui dos que irão morrer por César.
          Então como seria possível incluir essa camada mais vil e fortemente emocional naquelas camadas anteriormente apresentadas de forma que atinja um nível ainda maior da TC? Simples, mas para isso precisa-se lançar mão de algumas teorias paralelas. Uma delas é a da pirâmide social.
          Pela lógica da pirâmide social, quanto mais próximo do cume menos indivíduos. Ou seja, quanto mais alto na pirâmide de poder e recursos, menos pessoas com maior capacidades e recursos de manipular toda a base que os precede. Portanto, temos camadas e camadas de gerentes de recursos cujo único objetivo é cada vez mais acumular recursos e poder para fazer parte daquela ínfima classe, invisível à base geral, que comanda todo o resto sem ser comandada por ninguém. No topo da pirâmide apenas alguns são admitidos, com os recursos que ultrapassam absurdamente blocos inteiros em que se apoiam e que comandam. Uma boa metáfora seria uma arvore minúscula, com apenas uns poucos frutos, alimentada por raízes homéricas espalhadas por extensões absurdamente grandes.
          Quantos teriam nessa “seleta” parcela da comunidade piramidal? Podemos escolher qualquer número simbólico. Treze, dez, sete, seis, não importa. O principal é que sejam invisíveis, ainda que observáveis. Seria necessário que fossem reconhecíveis entre os poderosos, mas jamais apontados como os “Donos do Mundo”. Do contrário, seriam alvos fáceis e não se sustentariam. Também seria necessário que se traçasse um caminho possível para alcançar essa posição, um caminho que necessariamente iria igualando o pretendente a todos aqueles a quem pretende ter acesso. A lógica aqui é de que apenas um sistema igual é capaz de combater um outro sistema; ou de que só se pode substituir uma peça do sistema por outra equivalente, o que torna impossível destruir o sistema. Aliás, a base de qualquer TC é de que é impossível destruir o sistema que ela denuncia, não importa o que seja feito, no máximo pode-se alterar os seus componentes. Será?
          Então, para finalizar, vamos aplicar o que foi apresentado até agora na nossa TC fictícia e dar por encerrado esse exercício imaginativo. Qual motivação seria necessária para que os “Donos do Mundo” decidissem provocar uma crise global, com diversas camadas de conflitos localizados, aproveitando os recursos gerados a partir das manipulações agressivas, mas com resultados temerários e de difícil controle? É preciso lembrar que uma guerra global com armas nucleares não é de interesse para ninguém, principalmente para os orquestradores da TC, então o que motivaria algo tão arriscado?
          Posso pensar em várias soluções para isso, mas vou apresentar apenas uma mais simples e que atende completamente ao mais cético leitor: Aquecimento Global.
          Como assim? Uma teoria da conspiração fundada em algo que está visível em qualquer noticiário das últimas décadas? Algo que já foi discutido e reconhecido à exaustão? Pois é, simples assim. Vamos testar a hipótese?
          — Princípio da Universalidade – Afeta a todas as pessoas no planeta.
          — Princípio da Realidade – Não há como negar os efeitos gerados pelo aquecimento global, está noticiado e comprovado de diversas formas.
          — Principio da Simplicidade – É compreensível a qualquer um, embora possa ser trabalhada em diversos níveis de complexidade nos interesses de governos, empresas ou segmentos organizados.
          — Principio da Solução – É possível “combater” os efeitos danosos com práticas ecológicas globais, ou aliar-se aos que promovem os seus efeitos planejando como adquirir mais recursos durante a própria crise.
          Atendidos os requisitos necessários, podemos então usar a argumentação para elaborar a TC. Qual o motivador das ações dramáticas? Posso listar alguns:
          — Sobreviver à catástrofe que está para ocorrer em nível global.
          — Reduzir o “rebanho” de forma drástica, fazendo com que os melhores adaptados possam sobreviver e reconstruir a sociedade sob novos moldes, atendendo, é claro, aos interesses dos Donos do Mundo.
          — Arregimentar recursos durante a crise, basta lembrar do conceito de criatividade expandida e investimentos massivos devido à crise generalizada.
          — Apagar completamente os indícios que demonstrariam claramente quem provocou o aquecimento global e se beneficiou dele.
          Como juntar todas as peças de forma a traçar uma linha entre a base e o topo da “pirâmide”? Partindo de uma conspiração local e esmiuçando os motivadores até se “descobrir” relatórios que comprovem “cientificamente” que os efeitos climáticos serão menos sentidos em uma região específica do planeta, por exemplo, as áreas equatoriais e tropicais. Repare que nesta região mais agraciada pelo sol, os efeitos de uma glaciação provocada pelo aquecimento global (sim, isso pode parecer estranho, mas pesquise a respeito, vai se surpreender) seriam menos sentidos nessa região, além de que alguns países de proporções continentais como a África e o Brasil, estão bem dentro dela.
          Opa, agora começamos a “entender” a fome na África ou as crises brasileiras que, surpreendentemente, não são tão intensas quanto poderiam. Poderíamos até começar a repensar o bordão de “Brasil, um país do futuro” sob nova perspectiva. Poderíamos repensar diversas coisas, desde as políticas sociais implementadas nas terras tupiniquins até a influência que o país tem adquirido em conselhos globais, como a ONU. Podemos viajar pelas possibilidades apresentadas pela globalização, pela internet e até mesmo pelas “experiências” políticas de união de blocos político-econômicos dispares como o Mercosul e a União Europeia.
          Sim, não há limites para as possibilidades criativas em cima do modelo apresentado, seja pela vertente positivista, com os melhores e maiores valores humanos preservados, como fez Arthur Clark, por exemplo, no excelente livro de TC chamado de “Richter 10” onde apresenta uma maravilhosa versão ao mesmo tempo catastrófica e otimista do futuro. Podemos ir na linha oposta e desconstruir a humanidade à moda de Kurt Vonnegut. Podemos ir onde a imaginação nos levar, ou não.
          Mas espere, por que motivos um autor se disporia a apresentar abertamente um veio rico, com todas as bases estruturais de execução, de como montar teorias da conspiração, sendo que suas ideias podem ser utilizadas pelos concorrentes sem que haja nenhum retorno financeiro para o mesmo de forma direta? Isso não lhe parece muito obscuro? Deve haver algo que não foi explicado adequadamente, há interesses escondidos nisso que precisam ser investigados. Está começando a se sentir manipulado por este autor em um nível que não compreende completamente, mas que já desconfia?
          Se você foi capaz de pensar nisso e releu tudo o que foi apresentado sob uma nova perspectiva, parabéns. Pode ser que tenha chego à conclusão de que aquele que ensina alguma coisa entende muito mais profundamente do seu objeto de estudo, do que aquele que acaba de aprender. Essa pode ser a sua “deixa” de saída, sistematicamente planejada desde o princípio. Ou pode ser que o objetivo tenha lhe escapado de alguma forma e vai tentar ir mais além do que foi apresentado, vai começar a estudar este autor e seus textos. Pode ser até que se torne um fã e passe a segui-lo e a apresenta-lo para outros na tentativa de descobrir outras vertentes para o que lhe escapou. O que posso acrescentar?
Nos vemos no topo. Ou não.


Danny Marks

Ossos Cruzados

Não há dia melhor para apresentar os ossos que hoje, Dia dos Pais.
          Datas comemorativas foram criadas para sustentar o comércio, principalmente em tempos de crise econômica (e os governos nunca economizaram em criar crises). Torna-se quase uma obrigação apresentar os ossos mais simpáticos do corpo, os dentes, por mais que estejam amarelados, ausentes, branqueados artificialmente, substituídos por simulacros caros, amigos.
          Pais são, na emblemática figurativa das sociedades, os ossos da família. Assim como as mães são o coração e os filhos, a alma que precisa constantemente ser vigiada e reconduzida para evitar que se percam nos inúmeros descaminhos que as almas gostam de frequentar.
          Ossos são como a morte, algo que está sempre lá, em algum lugar, cumprindo o seu papel, mas deve permanecer escondido até que algo grave provoque a sua exposição.
          E são expostos, tremulando em bandeiras piratas anunciando o terror que chega, em shows de rock gritando a energia que nunca acaba em sorrisos descarnados. Caveiras de olhos que veem além dos olhos, iluminadas, purpurinadas, em chamas devoradoras de pecados, escurecidas, brilhantes para além dos limites do desconhecido que se recusa a manter-se oculto.
          Ossos cruzados em abraços e nos confrontos, ossos revestidos de metal, partidos e reconstruídos de forma radical. Somos os ossos da evolução que olha além dos campos, negando a gravidade, devorando a vida em nacos arrancados.
          Edifícios são ossos de concreto na cidade, calados permanecem ignorados até que se partem. Cumprem o seu papel, observam tudo em silencioso esgar, cientes de que estarão lá, duros, secos, firmes, quando tudo o mais tiver sido apagado.
          Até que virem cinzas poeirentas de um corpo que não precisa mais se sustentar. Essa é a nossa jornada, que se inicia neste momento, erguendo-se desnuda em palavras que, expostas friamente, observam os efeitos que provocam apenas pela sua inegável existência.
          Ossos do ofício, viciados em expor o indizível, sustentando-se sozinhos.

Danny Marks